VITOR DIZ: O meio de moda tem seus modismos, igual a qualquer um. Lembro de um importante sociólogo francês em visita ao Brasil que adorava falar a palavra dispositivo. Depois de sua passagem pelo país, todo pessoal da FFLCH da USP adotou o termo. Usávamos essa palavra até para tomar um café: o dispositivo necessidade.
Eu sempre ouço com freqüência nas rodas de moda frases como “aquela roupa não me despertou desejo”. E eu senti desejo de pensar melhor sobre isso.
Antes de tudo, eu brevemente queria dizer que acho sim a moda uma manifestação artística. Não em toda sua extensão, mas ela consegue como o cinema, a culinária ou a fotografia alcançar patamares artísticos que muitas vezes antecedem o que as chamadas artes tradicionais estão pensando em projetar.
As contribuições da moda no terreno da arte são extensas e Oliveros aqui no Blogview já salientou algumas de forma muito lúcida.
Conclusão feita a respeito do caráter artístico da moda, eu continuo minhas divagações. Pego emprestado uma análise brilhante do escritor James Joyce descrita em um de seus grandes livros-desafios: “Retrato do Artista Quando Jovem”.
Ele afirma em um trecho do livro que existe dois tipos de arte: Uma pornográfica e outra transcendente. A arte pornográfica será sempre aquela que não alcançar os 3 valores básicos fundamentais para uma arte poder transcender: “Integridade, harmonia e radiância”. A integridade estaria relacionada com o conteúdo (ética), a harmonia com a forma (estética) e a radiância com a religação com o transcendente, aquilo que faz a arte ser sublime e perene, pelo menos enquanto ela estiver com seus elementos ativos. Algo difícil de descrever, mas fácil de perceber.
A outra arte, na visão de Joyce, algo muito menor e sem real valor artístico, seria aquela que nunca passaria das necessidades mais materiais: o desejo, por isso o termo pornográfico.
Joyce usa a palavra arte pornográfica para designar aquela arte que ele não considera de valor e nem perene, mas que por certas circunstâncias recebe essa alcunha (arte).
Toda vez que uma roupa nos desperta desejo, ela está no campo da pornografia. E parece jogar a moda a uma região que ela mesma está fadada, a de uma manifestação cultural da mesma importância que os filmes pornográficos. Desejo + mercadoria + compra + saciedade + descarte.
Agora quando uma roupa nos desperta mais que desejo, é bom pararmos pra ver o que esse momento significa. É quando a moda, deixa de se movimentar como algo sempre fadado ao mundo material e realmente brilha como arte maior.
Goste ou não. Os elementos da arte transcendente estão nesse desfile de Jum Nakao.
Maravilhoso, o texto! E que prazer rever essas imagens! Thanx e bjs!