bafo da piauí: cópias e coisas da moda

9 jun

FERNANDA DIZ: A revista Piauí desse mês trouxe um texto de Daniela Pinheiro (espertíssima!) sobre cópias e plágios na moda brasileira, já tá na boca do povo há tempos. Ela trata especialmente do “nosso” mundinho da moda, mas frisa logo no início da matéria que “cópia não é privilégio brasileiro”. Uma das comparações que ilustram a matéria da Piauí é essa aqui, comparando looks de Juliana Jabour e Stella McCartney – antes esses vestidinhos ilustraram esse post.

bafo-da-piaui.jpg

A matéria é gigante e por isso a gente resolveu fazer um “especial bafo da Piauí”, pra ir pensando aos pouquinhos mas pra conseguir pensar tudo. Vamos aproveitar que o SPFW só começa na quarta e até lá vamos conversar sobre!

Quando eu li o texto pela primeira vez eu grifei tanta coisa que resolvi fazer uma mescla de trechos pra agregar temas. O primeiro é esse:

“Hoje não existe mais cópia deslavada, mas, como diz mesmo madame Rucki, do Studio Berçot (escola de estilismo Parisiense), a última invenção da moda foi a minissaia. Então, é difícil inventar a roda. (…) O que tem de cópia, cópia mesmo, é muito pouco. O que existe são inspirações fortes e tendências com as quais o mundo globalizado está em sintonia. (…) Todas as marcas, nacionais ou internacionais, têm acesso à informação, aos birôs de pesquisa e tendências, à internet. As pessoas captam o espírito do tempo, o zeitgeist. (…) Uma roupa parece nascer da combinação de algo visto em sites especializados em tendências ou em feiras internacionais de tecidos, com o toque pessoal do estilista.”

Quem falou a primeira parte foi a Glória Kalil, e sua citação vem seguida pela do Paulo Borges, depois vem a Adriana Bozon (da Ellus) e por último a própria jornalista. A gente concorda que não dá pra criar muita coisa nova, mas dizer que não existe cópia deslavada não tem fundamento – as fotos que ilustram o texto da revista mostram bem (o blog Fashion Now também ilustrou…!). Que se alguém ama alguma coisa, certamente vai ser influenciada por aquilo. Mas se tem conteúdo e consistência suficientes (e coerentes!) a ‘coisa’ criada agrega elementos de identidade, não? Daí passa a ser ispiração mesmo e não cópia: quando o ‘criador’ consegue imprimir sua personalidade na ‘inspiração’. E vocês acham o quê? Que o blog quer muito saber!

(Esse post já virou uma Piauí em si, como diz o Oliveros.)

BITI DIZ: Eu concordo com o que a Fernanda disse. Quem trabalha com moda está o tempo todo olhando o que se cria pelo mundo afora. É natural que as pessoas se influenciem e se inspirem nos trabalhos dos outros, nas tendências descritas pelos birôs, etc. mas tem que haver uma releitura, uma reinterpretação.

Hoje, na Folha de SP, tem uma matéria sobre a peça “Educação Sentimental do Vampiro” de Felipe Hirsch, escrita pelo crítico Sérgio Salvia Coelho. Ele cita o escritor Ezra Pound sobre a questão da invenção e da cópia. “Ezra Pound propõe uma classificação entre inventores, que inauguram uma linguagem; mestres, que recombinam liguagens em função de um projeto próprio; e diluidores, que reproduzem as lições dos mestres de forma mais acessível para um público maior.”

O problema, na moda (e em outros setores que lidam com a criatividade, porque isso não acontece só na moda, não vamos ser ingênuos) é que todo mundo quer se considerar, no mínimo, mestre. Falta humildade àqueles que disseminam as idéias alheias, como isso fosse uma falta grave. E não é. Fazer uma transposição bem feita de uma criação e torná-la acessível a um grande número de pessoas, não é demérito nenhum, é visão de mercado. O próprio Karl Lagerfeld fez isso na coleção para a H&M, com a única diferença que copiava a si mesmo. No Brasil, a Zara é a marca mais conhecida a atuar desta maneira. Já ouvi muitas críticas de confeccionistas brasileiros à Zara, dizendo que a marca acaba com o mercado, devido aos preços baixos, conseguidos com mão de obra barata (ou semi-escrava, vociferam alguns) de países pobres/emergentes como a China, a India, etc. Mas isso é uma outra discussão.

O XIS da questão é que os disseminadores querem se intitular criadores. Aí a coisa pega! Copiar, não assumir e dizer que é coincidência, inconsciente coletivo, bola de cristal, não cola!

FERNANDA DIZ: Tem mais do bafo aqui e aqui. Os próximos trechos que eu tenho vontade de debater (ai, eu sou muito séria, né? Hahaha!) são os que tratam das editoras de moda e suas críticas + o das semanas de moda versus gente que não desfila mas vende muito. A gente também pode comentar a parte mais bafônica de todas, que menciona Graça e Rinaldo, né? Mas hoje só amanhã.

LUIGI DIZ: Assino embaixo de tudo o que já foi dito até aqui. A questão da inspiração vs. cópia, a questão da humildade e tudo mais. Só achei uma pena, como o Oliveros disse aqui antes, que não falaram de ninguém grande, só da Ellus, que vamos combinar não está mais tão grande assim, né? Por outro lado, até que foi bom atacarem os novos estilistas/marcas, porque estes, mais do que qualquer outros – ainda mais por desfilarem nos maiores eventos de moda do país -, deveriam estar passando longe desta história da cópia e até de inspirações em outras marcas. Deveriam estar em busca de própria identidade, estilo e público.

Outra coisa que não me agradou na matéria, foram as descrições que a jornalista fazia toda vez que ia introduzir uma personagem no seu texto. Por exemplo quando descreve o Jum Nakao: “Aos 40 anos, 23 dedicados à moda, Nakao vestia uma calça jeans larga, com barra dobrada, um tênis amarelo e preto chamativo, parecendo uma bota, e uma camisa preta surrada (seria um look Harajuku cruza a avenida Paulista?)”. Acho que deu aquele velho tom, quase pejorativo, com que a grande imprensa costumava – ou seria costuma? – tratar a moda, sabe? Coisa fútil, que só serve para incentivar o consumo exagerado da nossa sociedade capitalista, bla bla bla…

E já que falei no Jum, as citações deles são bem relevantes para o jornalismo de moda. E aqui tem um ponto que eu queria mais comentários e opiniões a respeito: os famosos jabás. Todo mundo sabe que tem bastante gene que faz tudo por um. Mas não é regra, acho que existem exceções. Conversando com amigos lá no Rio, surgiu essa questão. Os jabás são casos muito subjetivo, tem aquele com intuito de comprar o jornalista, como também tem o mimo ou agradecimento por qualquer coisa: critica boa, matéria sobre algo, enfim, várias coisas. O que eu fiquei pensando é que será que um jornalista que recebe jabá não tem moral para criticar quem mandou o presente? Será que é não é possível ser imparcial mesmo ganhando presentinhos?

GLAUCO DIZ: O assunto levantado pela Piauí e trazido ao BlogView pela Fernanda é muito bom. Porém, ao contrário do Luigi, gostei muito das descrições que a jornalista faz dos entrevistados. Apesar de serem um pouco pejorativas (tenho que concordar), deixam o texto mais leve e engraçado, essencial para um texto daquele tamanho. Não senti nenhum preconceito da Daniela Pinheiro.

Em relação à questão do jabá, acho que dá assunto pra um outro post gigante. Mas, resumidamente, acredito que há jabás e jabás, jornalistas e jornalistas. Explico melhor: antes de mais nada, qualquer profissional que se preze tem o dever de ser imparcial, independentemente de presentinhos. É uma postura ética da profissão. E quando digo presentinhos, é no diminutivo mesmo… Lembraças, material de divulgação, coisa simples. Agora, acho ridículo a empresa que dá laptop ou viagem , por exemplo, e pior ainda o jornalistas que aceitam (já vi isso acontecer!!!)

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6 Respostas to “bafo da piauí: cópias e coisas da moda”

  1. Camila 9 de junho de 2007 às 6:13 am #

    Falando em copias..
    vcs viram essa da totem!?
    http://garotasestupidas.blogspot.com/2007/06/copia-descarada.html

    descarada mesmo!!
    Beijos

  2. Fashion Now 9 de junho de 2007 às 8:39 pm #

    Costumo dizer que tem gente que acha que a moda “brota” direto na vitrine da Prada… hahaha. Ou seria da Stella McCartney?

  3. IVAN AGUILAR 12 de junho de 2007 às 12:57 am #

    Caras…vcs todos juntos..não sei não… ninguém segura voces não, heimmmm???? Continuem assim, POR FAVOR!!!!!! .
    Bjs,
    IVAN AGUILAR

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  1. bafo da piauí: a imprensa e as cópias « BlogView - 11 de junho de 2007

    […] FERNANDA DIZ: Mais da matéria bafônica da Piauí, que a gente começou a ‘debater’ aqui. Primeiro tem a Glória Kalil falando e logo embaixo o Jum […]

  2. Oficina de Estilo » Blog Archive » bafo da piauí: as cópias e o consumidor - 20 de junho de 2007

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  3. OFICINA DE ESTILO: MODA PRA VIDA REAL » Blog Archive » semana de moda de ny via blogs-unidos! - 31 de maio de 2009

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