DA ESPIRITUALIDADE DAS ROUPAS

7 jul

VITOR DIZ: As roupas têm alma. Elas carregam em suas tramas as memórias, os sentimentos e as idéias de quem as vestem. Em seus fios estão registrados afetividades, vontades e desejos.

Mesmo em total época consumista e que o descartável é tido como valor positivo, sempre tem aquela peça que na hora da chamada “reciclagem do armário”, você não consegue se desfazer. Em geral, porque nela estão contidas memórias e desejos em toda a sua estrutura.

Olhando para as fotos de August Sanders, não posso deixar de notar as roupas dos trabalhadores alemães que ele tanto fotografou no começo do século 20, em uma época de grandes dificuldades econômicas para o país.

Mas apesar de retratar a matéria (ou a necessidade dela), as fotos de Sanders focam roupas cheias de espiritualidade. São as dobras destas roupas que conviviam 24 horas com seus donos que trazem todo o sentimento de quem a veste. Elas se moldam ao corpo, fazendo parte da vida do retratado. Em cada dobra está seu esforço, sua luta, seu trabalho. Em cada nesga está a sua dignidade. Isso é com certeza o que mais gosto nas fotos dele.

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fotos de August Sanders

Elas evidenciam que as roupas carregam as nossas histórias. Ao nos desfazermos de uma peça do vestuário não estamos nos desfazendo de nossa história, mas transferindo para outro, deixando um certo legado nosso nas manchas que caíram no tecido, no rasgo cerzido e principalmente das dobras de tecido que se amoldaram ao nosso corpo. È uma espécie de legado como os filhos, os livros, as fotos, os amigos.

Penso nos brechós como depositórios dessas histórias, uma biblioteca espiritual. Conheço pessoas que não compram roupas em brechós, pois os enxergam como cemitérios. Como acredito na espiritualidade das roupas, acho que não são nos brechós que elas devem acabar e sim é lá o local onde elas devem transcender.      

BITI DIZ: Essa questão da alma das roupas me parece super relevante hoje, um vez que vivemos no mundo do consumo rápido e do descartável. Mal temos tempo de usar nossas roupas tempo suficiente para que elas armazenem memórias, marcas, sensações. Somos compelidos a nos desfazer delas em nome da rapidez da moda, do último trend da última celebridade. O séquito de seguidores de trends instantâneos devora e cospe informações de moda, roupas e modismos, sem que nada disso tenha uma relação pessoal, interiorizada. 

Questões como estas foram discutidas no último Zigue Zague, evento interessantíssimo que aconteceu no MAM, simultâneamente que o SPFW, com curadoria de Cristiane Mesquita. E na Viés, que aconteceu na Galeria Vermelho, com curadoria do Oliveros.

Como muita gente não pôde participar destes eventos, vou contar aqui um pouco do que rolou na Zigue Zague. No dia 17/06, numa Conversa Transversal cujo tema era “Roupas em troca: pele, desapego e memória”, Marilá Dardot falou sobre a instalação “Desapego”, realizada algum tempo antes na Galeria Vermelho.

A artista pediu para alguns amigos doarem roupas que estivessem sem uso ou serventia. Essas roupas foram então dispostas numa arara na galeria. O público era convidado a trocar de roupa, caso se apaixonasse por uma das peças, desde que deixasse, em contrapartida, uma roupa que estivesse usando.

As roupas doadas eram consideradas mortas (uma morte sem corpo), já as dos visitantes, vivas. E a troca poderia acontecer através do Amor.

As questões envolvidas na obra se iniciam no momento em que uma pessoa é convidada a fazer a doação. Ela começa a pensar nos motivos que a levaram a guardar aquela roupa. Pode ser por causa de uma memória afetiva, por representar uma fase da vida, ou por questões práticas como ter engordado ou emagrecido.

Em seguida vem a possibilidade da troca, a chance de se apaixonar, de se desapegar. Mais do que a concretização da ação, o que importa é a dúvida, aqui.

Outra questão interessante é que esta instalação teve como ponto de partida a obra Banquete, realizada pela artista anteriormente. Banquete era uma obra sobre o Amor, e consistia numa versão do livro homônimo de Platão, em que o texto era impresso em páginas de material plástico transparente, deixando a leitura bastante embaralhada, com apenas alguns focos de leitura, nas entrelinhas.

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6 Respostas to “DA ESPIRITUALIDADE DAS ROUPAS”

  1. jovemdama 7 de julho de 2007 às 7:35 pm #

    Oi, imagino que tenha lido “O Casaco de Marx”, mas vale repetir.
    A leitura, a dica, o que seja.
    Sobre a alma das roupas, lembro de algumas conversas boas que tive. Sabe, essa coisa do tenho-que-ter-e-tenho-que-ter-agora não é minha conhecida. Estranho vindo de uma designer de Moda? Acho que não. As minhas avós e minha mãe costuraram muitas roupas pra mim enquanto eu crescia, e a relação com a roupa vinha desde lá longe, da compra do tecido, das muitas provas, das picadas de alfinete. Querer e esperar fazia parte do processo.
    Até hoje, fica chato não ter história com a roupa.

    😉

  2. jovemdama 7 de julho de 2007 às 7:37 pm #

    Ah, e sobre os brechós… um dia numa aula no Mestrado, a gente saiu com essa de que quem compra no brechó – no caso, eu mesma! – compra o esgotamento do outro.
    E que não desabona a peça. Não é?

  3. Maria Prata 8 de julho de 2007 às 3:38 am #

    Que delícia vc escrevendo aqui! O que já era bom ficou ainda melhor. Sobre o post: por isso que é genial essa história do clothes swaping, moda de troca-troca de roupas super em alta na europa. Nada melhor que uma roupa que já foi sua e fez tanto parte da sua vida, mas que agora está em coma no armário, volte a viver por mais alguns anos em um amigo seu. Vou promover uma balada dessas aqui em SP, que tal??

  4. Glauco Sabino 10 de julho de 2007 às 6:09 am #

    Que post bonito! Faz a gente ter que pensar um bocado… Fiquei refletindo sobre a minha relação com as roupas que tenho. Várias eu conservo há tempos… Ou pq tenho uma relação afetiva com a peça, ou pq ela é muito confortável, ou pq é legal… Enfim. Porém, me disfaço de muitas. E quando coloco para doação uma roupa, sinto como se estivesse abrindo espaço para uma nova pessoa, um novo estilo, abandonando o passado… Ai, sei lá, divagações noturnas, gente. 🙂 Arrasarm!

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