Orgulho de ser brasileiro

15 jul

OLIVEROS DIZ:

“É o caso de pararmos de querer ser brasileiros, pois brasileiros já somos, para o pior ou para o melhor. O importante é recusarmos expressar nossa singularidade de modo simplesmente visível. Não se trata de mostrar o que nos constitui, mas sim de falar a partir disso.” [SOUZA, Octavio. Fantasia de Brasil. São Paulo, Escuta, 1994]

Eu sou filho de estrangeiro que sempre me disse que este é o melhor país para se viver. Não temos fome de guerra, temos uma capacidade de adaptação a qualquer situação, temos uma alegria de viver e uma terra em que “se plantando tudo dá”. A única coisa que ele nunca entendeu é como esse lugar nunca deu certo.

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Agência Globo

Na abertura do Pan, fiquei vendo aquelas manifestações nacionais-ufanistas, concebidas pela carnavalesca Rosa de Magalhães, confesso eram lindas: Elza Soares, o folclore, a música, a terra que produz o maior espetáculo da terra, samba e Parantins. Já foi num barracão de escola de samba? Já desfilou em alguma? É uma experiência única. É impressionante como temos esta capacidade de produzir espetáculos deste tamanho.

Nesta hora é bom ser brasileiro, é bom usar verde-amarelo. Só nestas épocas ou de Copa do Mundo, porque no dia a dia, o bom gosto não permite. A França conseguiu criar um padrão considerado chic: o bleu-blanc-rouge. A bandeira da Grã Bretanha virou um símbolo pop consumido-desconstruído pela moda e pela massa, assim como a bandeira americana.

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Depois da revolução de 64 (sim, tudo minúsculo) a utilização dos símbolos nacionais, de maneira inadequada (?) foi proibida. E ficamos fadados a nunca sermos pops em termos da nossa bandeira e a combinação verde-amarela virou cafona. Lembro que na década de 80, uma marca chamada Kaos Brasilis, da Marta Punk, que estudou arquitetura em Santos, com o Toni Belloto dos Titãs, criou um logo, que era feito de partes da bandeira do Brasil.

A moda brasileira sofre do mesmo problema da identidade nacional. Como somos muitos, não temos nenhum tipo ideal: negros, mulatos, loiros, cafuzos, mamelucos, ruivos. A cultura nacional é tão diversa, que só de manifestações folclóricas, como o Boi, por exemplo, existem diferenças enormes entre o do Maranhão e o de Santa Catarina.

Com o processo de urbanização, o país acabou virando uma imensa cidade cosmopolita, e portanto mimese de outras metrópoles. Com a globalização este processo acelerou. É claro que existe ainda um país interiorano, afinal somos a Belíndia, a mistura entre o primeiro mundo (Bélgica) com o terceiro mundo (Índia), termo usado pelo economista Edmar Bacha, em 1974, para explicar a divisão de renda no país. Mas com o exodo rural este país está desaparecendo.

Moda, ainda que mercado, é cultura, e portanto é reflexo dos acontecimentos de um país. Moda é um fenômeno das cidades e não do campo. As roupas das lavadeiras a beira do Rio São Francisco não é moda, é roupa. Mas a moda pode se apropriar deste repertório e transformar estas roupas em moda.

Tanto se discute a identidade da moda nacional, que de tempos em tempos o Brasil vira moda. Vale a pena lembrar, que a Rhodia na década de 60, tendo a frente Livio Ragan, realizou desfiles com temáticas brasileiras, para criar um produto de exportação. A lista de artistas plásticos que tiveram seus desenhos utilizados em estamparia e depois transformados em tecidos sintéticos para vestidos, foi um fato inédito na história das artes plásticas no Brasil, quando até então a venda não era para o consumo público, mas para as paredes dos museus ou dos colecionadores.

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Assim Aldemir Martins, Milton Dacosta, Antonio Bandeira, Djanira, Alfredo Volpi, Iberê Camargo, Maria Bonomi, Ivan Serpa, Lívio Abramo, Maria Leontina, Tomie Ohtake, Francisco Brennand, Willys de Castro, Hércules Barsotti, Amélia Toledo, Waldemar Cordeiro, Nelson Leirner tiveram seus desenhos e pinturas a serviço de uma transformação social do consumo de moda.

No próximo Verão, o biscoito fino das artes vai poder ser devorado por uma pequena parcela da massa novamente. Em vez de fazer alusão a artistas estrangeiros, como a Iódice fez com a Sonia Delaunay, a Lenny preferiu Adriana Varejão

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Érika Ikezili escolheu Beatriz Milhazes.

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Maria Bonita trouxe nos prints uma alusão ao movimento neoconcreto brasileiro.

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Nem só de arte brasileira vive a próxima temporada, ainda temos o nordeste de Néon, Melk Z Da e Cori. O carnaval de Glória Coelho e Salinas. Nara Leão de Ronaldo Fraga, porém este é sempre uma exceção, ele (quase) sempre vê o Brasil. Sem contar o jeito carioca celebrado pela Osklen, a arquitetura de Brasília pela Blue Man, a chegada da Família Real Portuguesa em Santa Ephigênia. Nenhum tão impactante como o desfile de João Pimenta, na Casa de Criadores.

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Neon

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Cori

Que nossa cultura é rica, ninguém duvida. Que o Brasil é um tema muito bom de ser explorado, também. Isso não quer dizer que não possamos ser cosmopolitas, todavia, quando a nossa moda conta (com talento) um pouco mais da gente mesmo, é sempre um bom caminho para lembrarmos que é muito bom sermos brasileiros.

FOTOS DE DESFILE: Alexandre Schneider/UOL

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11 Respostas to “Orgulho de ser brasileiro”

  1. fernanda 15 de julho de 2007 às 7:54 pm #

    amei enxergar todas essas relações pelos seus olhos. isso podia virar uma aula, sabia? mega enriquecedor, arraou (as usual).

  2. Luigi 15 de julho de 2007 às 8:09 pm #

    Nossa, adorei!!! Sabe aquela hora que vc fala que como somos muitos não temos um tipo ideal? Então, resumiu tudo o que andei pensando por aqui. Pq quase todo mundo que eu conheço vem me perguntar como que é o povo típico do Brasil. E no fim fico meio perdido por que não sei o que responder, pq na verdade é uma mistura tão grande que fica difícil dizer o que seria o típico.

  3. Biti Averbach 15 de julho de 2007 às 10:22 pm #

    eu ainda acho um mistério assombroso a resistência que os brasileiros têm em se vestir de verde e amarelo, fora das situações de ufanismo como copa do mundo e etc. sempre ouço comentário do tipo: ah, misturar verde a amarelo de jeito nenhum, pq senão vai ficar parecendo a bandeira.
    não acho que as aulas educação moral e cívica, instituídas nos anos 70 pelos militares, expliquem esse complexo.
    prometo averiguar nas minhas andanças pela rua. aguardem!

  4. Laura 16 de julho de 2007 às 6:07 pm #

    Adorei seu texto. Ouvi de um alemão que morou aqui, “porque os brasileiros se menosprezam tanto”? Ele disse em seguida que depois da Alemanha o pais que tem mais empresas alemãs é o Brasil. (E nos pés dele e dos outros gringos as havaianas com a bandeirinha do Brasil).
    Sua visão sobre a pluralidade de culturas é muito pertinente e faz pensar que nesses primeiros 500 anos foi mais fácil se apropriar de uma cultura homogenea do velho continente do que desenvolver e festejar a diversidade da cultura das muitas regiões do pais.
    Agora, no entanto, o brasileiro se dá conta que o velho continente olha pra ele com a expectativa de novidade e que a arte e a cultura, principalmente a popular pode ser a fonte de inspiração para a atender as expectativas.
    Deixo esse ponto aqui, mas são tantos outros a tecer… bjo.

  5. Ale Carvalho -Lain 16 de julho de 2007 às 7:15 pm #

    mais uma vez, gostei das suas reflexões que deram um pontapé em outras aqui na minha cabeça. bjs

  6. Glauco Sabino 17 de julho de 2007 às 7:09 am #

    “Que o Brasil é um tema muito bom de ser explorado, também. Isso não quer dizer que não possamos ser cosmopolitas…” Não sei se vou falar uma besteira, mas tenho a imprensão de que entre alguns criadores brasileiros ou se é cosmoplita ou se olha para o Brasil. Nunca os dois juntos. Como se “olhar para o Brasil” fosse sinônimo de uma moda carnavalesca ou vulgar ou folclórica demais, euquanto ser cosmopolita significa estar alinhado com padrões europeus ou norte-americanos. E o sucesso da nossa moda lá fora não depende da junção desses dois? Tô viajando? 🙂

  7. Suely 17 de julho de 2007 às 12:08 pm #

    é meu caro….eu sempre acho vc muito lúcido em suas reflexões…qdo penso na nossa multiplicidade, no lugar de ficar tentando achar um tipo, creio q deveríamos era justamente celebrar nossa heterogeneidade, é ela que nos dá essa tez morena, esse gingado, esse calor que o povo tem e que nos faz únicos no globo…em que lugar se veria uma chinesa casando com um baiano e tendo duas filha mestiças lindas? sem falar na nossa etnia…um chinês casado com uma paulistana, filha de pernambucano sim senhor!!! olha só no que deu…sem falar de tantas outras misturas….creio que devíamos valorizar mais nossa falta de homogeneidade, valorizar todo esse repertório genético recebido e fazer uso dele a nosso favor, sem vulgaridades, sem aquele jeitinho maldoso – ou maldito – usar nossa criatividade tão badalada lá fora e poucas vezes bem explorada por aqui, com digníssimas exceções que nem preciso citar aqui….bjos

  8. jovemdama 17 de julho de 2007 às 2:02 pm #

    A abordagem foi bem cuidada, Oliveros. è muito complicado falar do que é ser brasileiro, e do que seria essa tal moda brasileira, né?
    Olhar pra dentro pra poder olhar pra fora? Ou olhar pra fora pra poder olhar pra dentro?
    O Brasil, formado de “hibridações”, “mestiçagens”, quando quer se mostrar leva o quê? Um étnico que não é puro?
    Sei lá. A discussão é longa. Muito longa.
    Se quiser discutir mais, tem um grupo de estudos que deve se manter às terças depois das 17h30min na Universidade Anhembi Morumbi.
    😉
    Abraço apertado.

  9. Marta Oliveira 21 de julho de 2007 às 3:28 pm #

    Acabo de digitalizar Kaos brasilis no google e encontrei esse post. Sou a Marta Oliveira, a Marta Punk que era dona e estilista da Kaos. Cheguei a ser chamada na delegacia por fazer roupas com o mapa e a bandeira do Brasil.

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