CONTRA MITOS, À FAVOR DA LIBERDADE DAS IDÉIAS

27 jul

VITOR ANGELO DIZ: Vivemos numa época pouco criativa faz tempo. Uma espécie de Rococó dus infernus que não conseguindo sucumbir ao Barraco fez do adorno o entorno. Temos ainda muita dificuldade de sair do vulcão criativo do Modernismo e de suas respostas na metade do século 20.

Digo isso não esquecendo que sim, temos exemplos pipocados e isolados de criatividade, mas muito menos do que a mídia necessita todos os dias para alimentar o chamado hype.

Outro problema, para nós, fashionistas “globalizados” na periferia do mundo da moda (gente, adoro esse nome, vocês já repararam… é tão Roberto Schwartz!) são os acessos e os olhares que esses acessos nos dão para informações que a distância não podemos conferir in loco.

Essa talvez tenha sido minha grande preocupação: a educação do meu olhar!

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Pensando nisso comecei a implicar com Hedi Slimane, sim ele, um totem, um deus e citação de 10 entre 10 fashionistas com adjetivos de fantástico, incrível e genial. Olha, talentoso sim, mas genial é um pouco demais. (ai meu Deus, vou ter meu fígado comido por abutres…)

Entendo que o excesso de adulação vem de uma época de necessidade constante de mitos e hypes, mas não podemos exagerar.

Sim, a sua substituição pelo belga Kris Van Assche na Dior Homme, que apresentou uma coleção medonha em sua estréia só fez alçar Slimane ainda mais no panteão da genialidade. Cuidado Chanel que daqui a pouco ele te derruba daí, segundo os fashionistas de nosso “pobre” tempo.

Pausa no cabeção:: Quando falei que tinha problemas com Slimane, o Uóliveros falou que era porque eu era gordo e não cabia numa skinny e a gente morreu de dar risada. Mas mesmo cabendo, não é uma roupa em que alguém com mais de 35 anos fique bem, pelo seu ar extremamente adolescente. Convenhamos que o Lagerfeld fica bem estranho com Dior Homme: meio múmia, meio Ozzy! Será que ele não tem amigo pra avisá-lo? kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Voltando ao assunto. Sim, acho Slimane talentoso mas não um criador ou mestre, o que pra mim é só nessas esferas que podem entrar em um panteão de genialidade. Apesar de que nos dias de hoje muitos consideram o marketing uma jogada de mestre.

Ezra Pound, esse sim poeta genial, classificou os escritores e numa visão geral, os artistas e produtores culturais em 6 tipos:

1 – Inventores – Homens que descobrem algo novo ou são os primeiros a evidenciar uma novidade.

2 – Mestres – Homens que combinam tais processos descobertos pelos inventores e os usam tão bem ou melhor que os inventores.

3 – Diluidores – Homens que difundem o que foi inventado

4 – Bons “escritores” sem qualidades salientes

5 – Belle Lettres – Homens que não inventaram nada mas se especializaram em uma parte da invenção.

6 – Lançadores de “moda” – Homens que por seu sucesso chamam atenção por um tempo, mas desaparecem e perdem importância no decorrer da História.

Pausa do politicamente incorreto: Antes que alguma feminista venha me chamar de misógino miojo mil folhas, o uso da palavra Homens aqui se relaciona aos seres humanos.

O que Slimane inventou? Nada! Pegou toda a informação da moda de rua e trouxe com olhar de moda para as passarelas. Processo realizado desde os anos 60 e, se não me engano, iniciado por Yves Saint-Laurent e sua jaqueta de motoqueiro inspirada no clássico de Marlon Brando “O Selvagem”.

Todo o universo rock já está presente na moda desde Mary Quant, sem falar da experiência inversa de construção de imagem rock pela moda com fez Vivienne Westwood, essa sim inventora.

No que ele é mestre? Nada. Ele não produziu uma moda inspirada na rua melhor que a de Vivienne nos 70 e todos que olharam para o Swinging London nos 60 e para não parecer velharia, está longe das construções de Walter Von Beirendonck para a W.& L.T.e toda a cultura eletrônica e clubber inserida em suas coleções.

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Mod dos anos 60 diz: “Sr. Doherty e Sr. slimane, bebam da minha fonte!”

Sim, ele é um diluidor de primeira. Sim, ele fundiu uma cultura rock’n roll em um meio tradicional: o da alfaiataria, mas nada de novo no front, basta ver os mods, ou o figurino de Jean Paul Belmondo nos filmes de Godard (no início dos anos 60) para entender o que estou falando, apesar de acharmos que o estilo é de Pete Doherty

anos-60.jpg

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Belmondo e seus signos imitados até hoje 

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Doherty carrega seu museu de grandes novidades e a namorada lançadora de “modas”

Enfim, Slimane pra mim tem algo de interessante. Trouxe o corpo magro e esguio para as passarelas, tornou-o centralmente fashion. E com isso a juventude que é o que toda a sociedade anseia, mesmo com todos os problemas que essa corrida por um corpo magro e mais jovem podem acarretar negativamente. Mas nesse sentido ele trouxe uma mudança que vejo como conservadora, pois como o sociólogo Edgar Mourin já escreveu, o processo de adolescer de uma sociedade é uma forma de domesticá-la e tirar qualquer sinal de rebeldia, o adorno vira entorno.

Momento fofoca podre: Sem falar de um certo ar pedófilo que, tenho certeza, no fundo o sr. Slimane deve ter ao fotografar seus jovens. Mais do que isso reflete uma sociedade com desejo de juventude, que pode enveredar tranquilamente pelo caminho da pedofilia. 

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foto Hedi Slimane 

modelo (de desejo) de Slimane 

 

Mas, afinal ele também é um produto de marketing assim como seu rival Tom Ford? Claro que em suas devidas proporções: Tom Ford é mais marketing agressivo, e Slimane é mais Natura, a marca, se é que vocês me entendem?

O estilista tem sim uma alfaiataria impecável! Mas pra mim, isso importa bem pouco no avanço da moda masculine. Não acredito que o avanço da roupa masculine esteja na alfaiataria. Apesar do senso comum entre fashionistas que alguém é bom em moda masculine quando faz uma boa alfaiataria. E é preciso desse quesito em seu currículo para entrar nesse mundo fechado de smokings.

A moda masculine avançará pelo sportswear, disso tenho uma intuição forte.

Então vejo Slimane como Debussy, trabalhando sobre a fórmula antiga, adorando as escalas tonais e não o novo de Schoenberg, o atonalismo.Ou mesmo Portinari que fingia cubismo para apresentar modernidade aceita para olhos fáceis, um cubismo de fachada. Quem ousava falar mal de Portinari na época, dizer que aquilo não era moderno e hoje o contrário é um fato inconteste.

Enfim, repito, Slimane tem seu mérito em seu tempo de moda sim, mas genial está longe. Isso não tira seus atributos e qualidades no mundo da moda, mas o rearranja na idéia de criador que muitos têm dele. E é assim começo a olhar para o fotógrafo.

Momento xoxo: E espero que diferente de Tom Ford, ele não caia no obscurantismo e se revele apenas um lançador de “moda”.

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7 Respostas to “CONTRA MITOS, À FAVOR DA LIBERDADE DAS IDÉIAS”

  1. Luigi 27 de julho de 2007 às 7:49 pm #

    Ai quanto ódio no coração!!

    Brincadeira! Eu sou bem fã, do Slimane, mas tenho que concordar com vc, de gênio ele não tem nada! É só talentoso e muito. Lembro que na primeira palestra da Marie Rucky em SP, ela falou que hoje não existe mais criador de moda, e acho que é super verdade isso. Afinal, quem cria aglo hoje, de verdade?

  2. Oficina de Estilo 28 de julho de 2007 às 12:26 am #

    acho ser diluidor bem vanguarda. sério.
    e agora também acho que a moda masculine vai evoluir por outro lado – especilamente depois da lavagem cerebral que seu oliveros me fez, me convencendo que brasil não é lugar de se usar terno.
    =)

  3. Sylvain 28 de julho de 2007 às 5:56 pm #

    Ufa! bem bom o post, mas um tanto amargo, não? Olha só: Slimane não é nehum gênio, não. Talvez seja té heresia tocar no nome de Gabrielle Chanel como referência. Ele é muito competente, sim, talentoso e se aproveitou de um momento de marasmo total na moda masculina para criar assunto com sua silhueta slim. Muito do boom da moda masculina atual devemos a ele, e esse mérito não lhe pode ser negado. De qualquer forma, por mais que eu também ache que o esporte tende a se infiltrar de vez na moda masculina, acho que ele é muito mais relevante para a história da moda masculina do que o Walter V.B.. Fenômeno de marketing ou não, lá na frente eu vou me lembrar muito mais de Hedi como colaborador para o avanço da moda para homem do que dos pseudo-clubbers datados do Walter e do Bern HARD….Era legal lá nos anos 90, hj em dia, não me diz nada. Bjs!

  4. Luciene 29 de julho de 2007 às 5:30 pm #

    Bem vindo de volta às letras Sr. Vitor Angelo, estava com saudades.
    Aproveito para lhe desejar muita saúde e vida longa!
    À propósito, excelente post. Essa estória da paixão moderna pela juventude incentivar a pedofilia é forte, forte…

  5. Glauco Sabino 1 de agosto de 2007 às 2:28 am #

    Nossa, que folêgo, hein?? Uma pIauí, delicia de se ler… Adorei a parte dos “abutres comendo o seu fígado”: as vezes tenho essa mesma sensação. Bjo!

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  1. DUS*****INFERNUS NO BLOGVIEW HOJE « dus*****infernus - 27 de julho de 2007

    […] NO BLOGVIEW HOJE Hoje tem coluna minha no Blogview e é super de coração tudo aquilo que escrevi sobre o “mito“ Hedi Slimane. Eu não gosto e […]

  2. A NOVA BELEZA MASCULINA « dus*****infernus - 21 de outubro de 2009

    […] novo porque isso é mais marketing que verdade, pois sua modelagem é toda chupada da década de 60 como já escrevi aqui antes). Mas isso pouca importa, o que chama atenção é que com o aval de Lagerfeld, viu-se durante […]

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