Arquivo | agosto, 2007

A PERSONAGEM LADY DI

31 ago

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VITOR DIZ: Como escrevi ontem em meu blog lembrando a época da morte de Lady Di, ela “nunca foi muito assunto de minhas preocupações nem de meus amigos ingleses, quase todos republicanos e anti-monarquistas. Lembro bem de um piquenique na Soho Square, que apareceram uns amigos que estavam trabalhando para almoçar na praça e no meio da conversa todos me falaram que achavam ela uma típica inglesinha de merda, que fazia muito bem seu papel na grande novela mexicana que são os membros da família real. Isso são palavras deles e lembro que olhando pra mim falaram: cada povo tem a soup opera que merece!

Então comecei a pensar na Lady Di como uma personagem de uma grande e eterna novela inglesa sem fim e que, cheia de surpresas, traz sempre reviravoltas em sua narrativa. Além disso, muitas dessas histórias são contadas através de suas roupas.

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Ela começa como a mocinha, uma namoradinha do Reino Unido pra Regina Duarte nenhuma botar defeito. Um ar ingênuo e muito inglesa em seu cardigãs, cashmeres, saias plissadas e estampas florais. Esses dois últimos itens acompanham aind a em seu estilo.

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Mesmo a famosa foto de John Minihan, que causou certa comoção na época por mostrar Diana com uma saia transparente com as pernas abertas, não conseguiu macular a imagem de boa moça, ainda mais segurando crianças da escola que dava aulas antes de se casar com Charles.

Como numa novela escrita por David Lynch, o final feliz vem antes. Diana e Charles trocam alianças no chamado casamento do século. A futura princesa de Gales casa-se em um modelo criado por David e Elizabeth Emanuel, com mais de 10 mil pérolas bordadas em um vestido marfim de tafetá de seda pura com renda. A cerimônia, televisionada para diversos países, faz nascer um ícone fashion, o vestido de Diana é copiado no mundo inteiro. Quer melhor novela que essa pra difundir modismos!

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Depois, veio uma princesa ainda muito insegura em relação ao seu estilo, que seguia as tendências, ainda não as ditava. Adotou o power dressing da década de 80, e mandou ver nas ombreiras, no tailleur, no chapéus e na escova. Dizem que na época ela seguia muito o que o pessoal da Vogue inglesa falava pessoalmente a ela o que era bom e fashion.

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Chegou a gastar em um ano sem muito consumo mais de 60 mil dólares em roupas, uma coisa meio Rainha da Sucata! Mas a vida de princesa não era fácil não.

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Infeliz no casamento, com traições de ambos, um certo mau estar com as regras rigorosas da família real, ela se divorcia e se reinventa. Tipo a Julia, interpretada por Sonia Braga em Dancyn’ Days quando depois de passar um tempo na cadeia, vai pra Nova York e volta supermegablaster hype.

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Antes e Depois

Acerta a modelagem, dá um corte mais moderno no cabelo, começa a ter consciência fashion. Continua a prestigiar a moda inglesa vestindo estilistas como Bruce Oldfield, Edina Ronay e Catherine Walker, além de prestigiar seus amigos Gianni Versace, Valentino, Christian Lacroix e Ungaro.

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E fica cada vez mais magra, o que pra moda é ótimo, mas para a sua saúde era péssimo. Vive o drama da bulimia e da anorexia acompanhada por toda a Inglaterra. Uma coisa Camilinha (Carolibna Dieckmann) que tinha câncer na novela do Manoel Carlos que eu não lembro o nome.

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Agora não adianta, Di (já fiquei intimo) gostava mesmo de uma boa cintura alta, fruto dos 80 que estão tão na moda e por conseqüência, seu estilo que tinha até para fazer suas viagens assistenciais como as inúmeras personagens da Regina Duarte.

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Sua morte trágica parece não encerrar a personagem. Livros, hoje, dão conta de tentar desmontar o mito, uns chegam a falar que ela era fria e calculista. Mas sendo assim, uma pesonagem tão complexa, eu só tenho uma pergunta: Afinal, quem matou Odete Roitman?

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Universo Cosplay

30 ago

GLAUCO DIZ: Pesquisando para a minha primeira colaboração para o site da RG Vogue (Ebaaa!), descobri um universo bem curioso. Certamente, muitos já conhecem a cultura cosplayer. De qualquer forma, acho que vale dividir com vocês meu encantamento nerd com o tema…rs.

Abreviação de “costume player”, o cosplay surgiu na década de 70 (alguns falam que foi no Japão; outros, nos EUA), quando as convenções de quadrinhos e filmes de ficção científica liberavam a entrada de quem estivesse fantasiado como os personagens das histórias.  Com o passar do tempo, a prática foi se tornando uma tradição e um hábito que se espalhou por todos os tipos de convenções envolvendo séries ou personagens.

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Eu sou muito nerd… Queria tanto a fantasia dos X-Men (acima), ou do Squall, do jogo Final Fantasy (loiro agachado, logo abaixo). O cabelo da menina da foto à direita é bem legal!

Reza a etiqueta cosplay que você deve confeccionar a sua própria roupa com, no máximo, a ajuda de duas pessoas não-profissionais. Porém, com a brincadeira se tornando algo cada vez mais sério e um negócio para muitas empresas, há hoje até Cosplay Stores. Ou seja, lojas especializadas em comercializar produtos para esse público, além de fabricar toda sorte de fantasias, armaduras e armas. Na minha pesquisa, descobri que algumas pessoas gastam até R$ 2 mil para se transformarem no personagem escolhido.

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A japonesa Yaya Han, considerada uma das melhores do mundo no cosplay.

O principal ponto de encontro dos cosplayers são os eventos de animê que acontecem anualmente no mundo todo. No Brasil, são mais de 400 comunidades no orkut, com participação de pessoas de norte a sul do País, além de eventos em quase todos os estados. Por concentrar a maior colônia japonesa, São Paulo conta com as mais importantes convenções: além dos populares Animecon e Anime Friends, que recebem milhares de visitantes em Julho, a cidade sedia também as eliminatórias para o World Cosplay Summit (WCS), concurso internacional de cosplay cujas finais são realizadas no Japão. Nesses concursos, os competidores têm de fazer uma pequena apresentação que represente os personagens que escolheram encarnar e o desempenho é avaliado por juízes. Aliás, no WCS 2007, um casal de brasileiros estava entre os 12 finalistas. Os cariocas Thaís Jussi e Marcelo Fernandes foram buscar o bicampeonato do Brasil no concurso, já que os irmãos paulistas Mauricio e Mônica Somenzari venceram a edição de 2006.

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Após três meses preparando as vestimentas, Vingaard e Yuki, como são chamados os personagens dos cariocas Thaís Jussi e Marcelo Fernandes, venceram etapa nacional do WCS 2007.

Moda

Impossível não falar da influência que toda essa cultura tem na moda. De cara, dá pra lembrar de toda a montação dos jovens japoneses em Harajuku e Akihabara, bairros referência de cosplay pelo mundo, localizados em Tóquio. Em escala menor, o cosplay também ocupa as ruas de São Paulo. Quem freqüenta o bairro da Liberdade aos sábados certamente já deve ter visto, principalmente perto da estação do metrô, adolescentes com lentes de contato coloridas, tiara com orelhas de gatinho e, com um pouquinho de sorte, até uns cosplayers (eu já vi um grupo muuuuito legal: uns meninos vestidos iguais aos membros da gangue de Alex, interpretado por Malcolm McDowell, no clássico Laranja Mecânica).

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Fotos do Flickr de jovens do bairro japonês de Harajuku, em Tóquio 

Super antenada na cultura pop e nas atitudes que “estão em alta”, a estilista Thais Losso, apresentou no último Fashion Rio, pela grife Sommer, uma coleção com temática oriental. Para o desfile que rolou no Cine Odeon, no centro do Rio, contratou cosplayers e exibiu vídeos do popular desenho Naruto. Já a Nike, que pelo visto não perde uma, também lançou uma propaganda que utiliza desse universo. Cosplayers perseguem um cara pelas ruas de Tóquio usando tênis multicoloridos. É bem legal.

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O verão 2008 da Sommer tem referências na cultura pop asiática e, é claro, nos cosplayers (Fotos Alexandre Schneider/UOL)


O Vídeo Nikecosplay

Choque

30 ago

OH! DIZ: Não assino o jornal Estado, nem tenho o custume de lê-lo na internet, então só agora que eu vi a campanha que o portal de internet do jornal vem fazendo contra os blogs (até comentei no meu blog no começo da semana) com o slogan: “por onde você tem clicado, heim?”.

OH! DIZ: O que mais me chocou foi a generalização com que eles abordam o assunto, fazendo parecer que todos os blogs, como os de psicologia mencionados acima, são um truque. Realmente fica fácil de descreditar muitos bloggueiros pois não sabemos quem são e nem se eles sabem do que estão falando. Mas, pra mim, fica ao critério de cada pessoa saber se o que o blog fala é verdade ou não. O grande problema é a generalização da campanha. Ai já é um pouco demais, não? Ainda mais vindo de um jornal que tem como slogan “pense ão”.

OH! DIZ: Ah, a incrível campanha foi criada pela Talent.

Para ler mais sobre esta discussão, tem matérias no brainstorm 9 e no querido Glauco/Descolex.

Devido a grande discussão gerada pelo assunto, ontem teve até uma mesa redonda entre bloggers, publicitários e jornalistas do Estado, para discutir conteúdo digital e responsabilidade. A matéria já está no ar e pode ser lida aqui. Adoro que os criadores da campanha não acham que ela é ofensiva, e que daqui a duas semanas um novo blog (!!) da agência entrará no ar…

‘visita guiada’ ao showstudio

28 ago

OFICINA DIZ: O ShowStudio do Nick Knight sempre me intimidou. Eu achava moderno demais pra mim, vanguarda demais, na frente demais. E hoje aprendi que o ShowStudio é um projeto de amigos, um meio facilitador de idéias, conversas e crescimento – de todo mundo que faz ou que só curte o que tem lá. Na palestra da Penny Martin hoje no Iguatemi Filme Fashion foi bem isso que a gente ouviu: o top fotógrafo, junto com o diretor de arte Peter Saville, sentiam restrições e limites nos seus trabalhos e queriam experimentar, inovar, ter mais liberdade e tals. E queriam de um jeito rápido, barato e acessível: a internet pareceu uma super solução – isso era 2000.

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no escurinho do cinema! 

OFICINA DIZ: E foi mesmo (diz que não é nem tão rápido quanto eles queria, nem tão barato). A idéia é expor um estúdio de verdade, onde trabalhos de verdade acontecem, ao maior número de pessoas possível E ainda trocar informações com essas pessoas. Promover projetos colaborativos (entre artistas com vontades e carreiras diferentes) pra promover produtos cada vez mais originais. Despertar inquietação na audiência pra gerar mais e mais idéias, mais troca. E aproveitar o ambiente virtual pra testar novas tecnologias: revistas contam com imagens e textos. Internet conta com imagens, textos, sons, movimentos, interatividade… No ShowStudio editoriais são feitos com imagens de celular, de webcam, com uso de photoshop e com intervenções de artistas e ilustradores e tals.

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fashionistas flagrados por câmeras de celular: sem retoques, que photoshop é só pra fazer arte!

OFICINA DIZ: A editora mostrou vááários projetos mega legais do ShowStudio (todos na parte de arquivo deles), e um dos mais legais é um editorial com imagens feitas com um scanner tipo de ressonância magnética, de hospital mesmo, que fotografa pessoas em 3d, com relevos e em 360º. A forma humana é escaneada e coberta depois por papéis bem pobrinhos que revestem os relevos querendo ser peças de alta costura sem ser, mas criando o mesmo efeito. E a pessoa pode com o mouse girar a imagem como quiser e ver do ângulo que quiser (achei incríííível). Outra é um filminho em que peças-chave de coleções super importantes foram ‘gravadas’ por um aparelho que registra o som como se ele fosse extraído por um microscópio, super mega apurado. Em vez de só ver as roupas, a gente as ouve também. Não é genial?!??

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OFICINA DIZ: Um monte de projetos do site é pensado e executado pra ser baixado pela audiência – eles qurem que a gente baixe, reinterprete, fotografe e devolva pra eles, pra que a galeria de “trabalhos” feitos em colaboração entre site e internautas cresça e se diversifique mais e mais (de-mais!). Tipo o John Galliano fez uma estampa (ou um molde, not sure) que está lá disponível pra download. Um moço no Nepal baixou, fez, fotografou e mandou pra eles – no Nepal não tem John Galliano, mas esse moço tem! E a gente postou há tempos a galeria de fotos formada pela colaboração de pessoas que baixaram um molde feito/disponibilizado pelo Yohji Yamamoto: elas cortaram e costuraram seus próprios tecidos com as instruções deles e no fim, gente do mundo todo tem várias interpretações de um mesmo trabalho. =)

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a loira é a penny martin – e ela a-do-rou a gente, tsá?!??

OFICINA DIZ: No site dá pra acompanhar sessões de fotos, confecção e criação de projetos, dá pra ver o povo trabalhando em tempo real no estúdio e dá pra participar de foruns e discussões. O blog do site tá super abastecido com as impressões da Penny Martin sobre o Filme Fashion e sobre as pessoas que passam por lá. Tem uma lista de links que é um super catálogo fashion, com mil referências e sugestões legais. Não intimida, não exclui – pelo contrário: o ShowStudio chama pra dentro, inclui o que tá de fora, valoriza o olhar externo e faz todo mundo mais inteligente, mais legal.

Por onde costura a agulha de Jum Nakao

26 ago

OLIVEROS DIZ: Bom, nesta série que estou escrevendo aos domingos, procuro refletir sobre como o povo da moda acaba indo para a arte em busca de novos caminhos e fronteiras. Tudo começou com o artigo Por onde sua agulha costura, para explicitar que Moda não é Arte.

Depois vieram os artigos sobre a Karlla Girotto e o Maurício Iânes . Engraçado, que quando comecei o primeiro seria Jum Nakao. Depois, pensei que era óbvio demais, porque ele é o grande exemplo do cruzamento de fronteiras entre Moda e Arte, principalmente depois do seu desfile-manifesto com as roupas de papel.

Eu escrevi um artigo para o dossiê sobre Moda e Arte para revista Cult sobre o desfile. Considero este texto uma síntese sobre o que eu penso sobre estas relações. Depois, acho que fiquei repetindo a mesma coisa, como o velho Barbosa, personagem do Ney Latorraca, na TV Pirata.

Para tentar não me repetir tanto assim, vou relatar a primeira vez que convidei o Jum Nakao para participar de uma exposição de artes plásticas.

Conheço o trabalho do Jum há muito tempo, desde seus desfiles no Phytoervas Fashion (1996), que eu assistia ainda pela TV, e depois revi no documentário Moda Brasileira, 1 olhar de Ruth Slinger. Por causa de uma crítica que eu escrevi no extinto site gay Supersite sobre o desfile A Carta (2000) em que ele homenageava Ronaldo Fraga e vice-e-versa, eles quiseram me conhecer. Daí para frente, pude acompanhar mais de perto o trabalho dele.

No seu desfile do verão 2003/2004, Nakao fez uma coleção-tributo à obra dos animadores Stephen e Timothy Quay, os irmãos americanos radicados em Londres que ganharam projeção por imprimir uma nova estética nos curtas de animação.


Animação The Epic of Gilgamesh (1985) dos Brohers Quay

Mais do que o belo desfile, o catálogo me chamou muita atenção. Quando eu estava pesquisando artistas para a exposição Imagética em 2003, propus para os outros curadores apresentar este trabalho, porque achava que era uma síntese do cruzamento de linguagens. Tive que defender muito minha tese até convencê-los.

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Imagem do catálogo do Jum Nakao

O resultado foi uma instalação com ambiente sonoro, projeção de imagens, impressos do catálogo, amostras das etapas do processamento das matérias prima, maquete do cenário, bonecos e até um manequim com roupa de bailarina na abertura do desfile.

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Imagens da instalação de Jum Nakao em Imagética

Assim, o público pode ver ao vivo as bonecas surrealistas das fotos do catálogo e foi a primeira vez que trabalhei com moda numa exposição. Depois do desfile das roupas de papel, na coletiva Grátis (julho de 2004), na Galeria Vermelho, Jum Nakao apresentou a Fonte dos Desejos.

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A fonte destruída de Jum Nakao

Por coincidência, só viu este trabalho por inteiro quem foi na abertura da mostra. Durante a noite, a fonte se partiu, e o que restou foi um vídeo documentando as pessoas que faziam seus desejos. Assim, como as roupas que só existiram no desfile, a fonte também fez seu paralelo.

Daí para frente, todo mundo já sabe. Jum Nakao participou de várias exposições e, além de ser reconhecido como um estilista de grande talento, já tem seu lugar nas artes.

sem título

25 ago

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Laura diz: Esse sábado estive no Masp para ver exposição DA BAUHAUS A (AGORA!). A mostra fica no masp até 28 de outubro e traz 100 obras da coleção de arte da fábrica de carros alemã DaimlerChrysler.

Entre as peças uma foto do suíço Daniele Buetti (aí em cima) me chamou a atenção. Uma modelo com a pele marcada com as palavras Christian Dior, parecendo uma maneira caseira de tatuar o nome da grife. A imagem choca. A obra é uma da série: “Procurando por Amor”.Não conhecia o trabalho do artista e acho bem interessante observar uma obra de arte sem informações prévias sobre porque os pensamentos fluem mais soltos. Quando olhei a imagem e li o título me veio a cabeça um carrossel de pensamentos:
Será uma crítica ao consumismo? À necessidade da sociedade moderna de etiquetar as pessoas, como numa seção de supermercado?

A interpretação da arte é muito pessoal, prefiro usar esse post para convidar os leitores do blogview à reflexão com a observação de outras imagens do mesmo artista, que, ao que parece, gosta de reinventar imagens de moda.

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Consumo do bem

25 ago

GLAUCO DIZ: Em tempos de Criança Esperança, fiquei pensando na quantidade de iniciativas que existem hoje em prol de alguma coisa, de qualquer coisa. Não que eu não ache válido ajudar as criancinhas, os velhinhos, as baleias, as árvores… Mas, frente a essas milhares de campanhas para arrecadar dinheiro, não é de se espantar que as pessoas façam cada vez menos caridade. “Se eu for ajudar todo mundo que me pede, sou eu que vou precisar levantar fundos pra viver…” é uma frase muito comum de se ouvir. É por isso que, de uns tempos pra cá, grandes campanhas para arrecadar dinheiro vêm envolvendo cada vez mais o consumo (esse sim, nunca para de aumentar) de um produto.

Lembra-se daquelas pulserinhas da Livestrong? Lançada em 1999, o fruto da parceria entre a Lance Armstrong Foundation e a Nike virou febre mundial. (Quase) todo mundo tinha uma. A original era amarela, mas depois de um tempo dava para encontrar todas as cores em qualquer camelô… Comprava-se porque “tá na moda” sem que ao menos as pessoas soubessem qual era a razão daquilo mais. Sem dúvida, um aspecto negativo desse tipo de estratégia de marketing das ONGS.

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As pulseiras originais da Livestrong…

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… E as fakes.

Propaganda da Nike sobre a fabricação das pulseiras

Mas, por outro lado, há de se concordar que se a única linguagem universalmente compreendida é a do consumo, é mais do que justo utilizá-la a favor de coisas positivas. Um exemplo muito bom disso é a Red. Criada para arrecadar recursos para o Fundo Global de combate à Aids na África, além da malária e da tuberculose, a campanha pintou de vermelho produtos de grandes empresas como Apple, Motorola, GAP, Armani e Converse.

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Linhas de produtos Red: Gap, Apple, Motorola, Armani e Converse são alguns exemplos

O queridinho do momento, Mika emprestou a voz para a propagada da Motorola sobre o celular Red

A revista americana Vanity Fair, inclusive, entrou na onda dedicando sua edição de Julho a matérias e entrevistas sobre o Red e a situação na África. Além disso, lançaram em parceria um CD no iTunes com músicas de artistas africanos. Todo dinheiro da venda das faixas foi e está sendo destinado para a causa. “A Red não é caridade, é simplesmente um modelo de negócio. Você compra coisas ‘vermelhas’ e nós conseguimos o dinheiro. Compramos os remédios e os distribuímos. Assim conseguem continuar vivos e cuidar de suas famílias”, afirma o manifesto da campanha. Em maio de 2006, a Red entregou seu primeiro US$ 1 milhão ao Fundo Global para suas atividades em Ruanda. Em setembro, outros US$ 9 milhões foram para essa nação e a Suazilândia, um dos países africanos mais afetados pela Aids.

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A revista Vanity Fair fez 20 capas com diferentes personalidades. A idéia era criar a sensação de que um passava a idéia para o outro…

Bono Vox fala do seu trabalho como “editor convidado” da edição especial da Vanity Fair África

Aqui no Brasil, não poderia deixar de citar a Campanha “O Câncer de Mama no Alvo da Moda”. Nascida nos Estados Unidos, em 1994, por iniciativa do CFDA (Council of Fashion Designers of America), é realizada há 12 anos no Brasil pelo IBCC – Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Nesse período, o alvo azul desenhado por Ralph Lauren em homenagem à sua amiga e jornalista, Nina Hyde, que morreu de câncer de mama em 1990, estampou inúmeros produtos licenciados por empresas como Hering e Rainha, além de coleções assinadas por estilistas como Isabela Capeto e Marcelo Sommer. Segundo dados do próprio IBCC já foram vendidas mais de 7 milhões de camisetas do “alvo” e arrecadados mais de R$ 40 milhões desde o início da campanha. Esses recursos permitiram ao hospital ampliar em três mil metros quadrados a sua área e subsidiar parte dos atendimentos médicos, dobrando o volume de consultas, mamografias e cirurgias.

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Linha de produtos “do Alvo”: Hering, Ronaldo Fraga, Rainha e Isabela Capeto são alguns exemplos

 

Consideração

Com os exemplos acima, tudo indica que esse modelo de arrecadação de fundos é o futuro (e o presente) das ONGs. Mas há, na minha opinião, uma consideração importante: cria-se a sensação de que comprando, as pessoas já terão feito a parte delas. Você compra o seu ipod Red e pode dormir ouvindo música tranquilamente sabendo que ajudou quem nem sabe o que é ter uma cama… Parece simples demais. Tão simples que banaliza questões que devem ser discutidas, cobradas e tratadas com mais seriedade por todos. Se além de comprar, cada um pudesse doar um pouco do seu tempo, um pouco do seu poder de espalhar e difundir idéias, talvez a coisa seria bem melhor, não acham?