O Hip Hop e a moda

2 ago

GLAUCO DIZ: Começa nessa sexta-feira a Segunda Mostra de Filmes Hip Hop de São Paulo, no Cinesesc. Serão treze títulos nacionais e estrangeiros, distribuídos em 21 sessões… Tudo de graça. Mesmo para quem não curte muito o gênero, é um oportunidade bacana de conhecer e entender um pouco mais essa cultura que tanto influenciou (e influência!) o streetstyle mundo afora. Um exemplo? O documentário Just for Kicks (De Thibaut De Longeville e Lisa Leone), que investiga a obsessão que a cultura hip hop tem, desde sempre, com tênis. Durante 80 minutos, artistas de rap, atletas, empresários e colecionadores filosofam sobre as razões por trás do fenômeno que fez o calçado se tornar um dos acessórios mais usados no mundo todo. De quebra, dá ainda pra babar nas gigantescas coleções de Nikes, Adidas e Pumas do povo que aparece no filme.

Trecho do documentário “Just for Kicks”

Aliás, eu acho que essas são marcas têm muito a agradecer ao Hip Hop. Por serem mais confortáveis na hora de dançar e por terem um preço mais acessível, as calças largas e os itens esportivos viraram quase um uniforme dessa galera. A Nike tanto sabe disso que adotou uma prática que eles definem como “bro-ing”: no começo, uma equipe de marketing ia até as quadras de basquete da periferia para perguntar algo como “e aí, bro, o que você acha desse tênis, dessa calça, dessa camiseta?”. Enfim, pesquisa de opinião. A coisa funcionava tanto que, hoje, a empresa cria e apoia centros de recreação pra periferia, promovendo campeonatos e, é claro, testando seus produtos.

break1.jpg

Roupas largas e confortáveis na hora de dançar e jogas basquete

Outro caso interessante é o da Adidas. Reza a lenda que uma vez Russell Simmons, presidente da gravadora Def Jam, procurou executivos da Adidas em busca de patrocínio para o lendário grupo Run DMC, que além de vestir a marca dos pés à cabeça, ainda gravaram o hit “My Adidas”. Os caras da empresa não deram a mínima. Foi aí, então, que Simmons convidou os executivos à assistirem a um show do grupo… Num determinado momento, enquanto eles cantavam a tal música, um dos integrantes gritou “ok, todos balançando seu Adidas agora”. Não demorou cinco minutos: enquanto 3 mil pares de tênis balançavam no ar, os executivos sacaram o talão de cheques e começaram uma parceria que levaria a marca ao sucesso.

run-dmc.jpg

O look “Adidas da cabeças aos pés” do Run DMC…

tenis.jpg

… e o tênis comemorativo de 35 anos do modelo Run DMC Superstar

E não são só as grifes esportivas que se utilizam do hip hop pra turbinar as vendas, não. Em 2004, Steve Stoute, ex-produtor de artistas do gênero e consultor de empresas interessadas em se comunicar com um público mais novo, emplacou um sucesso trabalhando para Tommy Hilfiger. O desafio era revitalizar a linha de perfumes da marca. Por sugestão de Stoute, a grife contratou a cantora Beyoncé Knowles como garota-propaganda de uma nova fragrância, a True Star. O estardalhaço feito na campanha contribuiu para fazer do produto o mais bem-sucedido da empresa nessa linha nos últimos dez anos.

beyonce.jpg

Camapanha da Tommy Hilfiger para o perfume True Star, com Beyoncé

Enfim, tudo isso me pensar o quanto os senhores Adorno e Horkheimer estavam certos: a indústria cultural engole e massifica tudo. Vou explicar. Quando surgiu no final da década de 60 e explodiu em meados dos anos 80, o Hip Hop tinha o mesmo caráter de rebeldia e protesto dos primeiros tempos do punk (lembra do meu post semana passada?) e do rock’n’roll. Mas, a exemplo do que ocorreu no passado, rapidamente o estilo musical foi absorvido pela indústria de consumo, transformando-se em uma máquina de fazer dinheiro. E não é só com a venda de discos e ingressos para shows, viu? Uma matéria da revista Exame diz que, de acordo com a consultoria NDP Group, “somente o mercado de vendas de roupas inspiradas no figurino dos astros do momento da música negra movimentou 2,6 bilhões de dólares no ano passado nos Estados Unidos”. É por essas e por outras, que eu termino o post cantando junto com o Public Enemy: “Don’t Belive the Hype”…rs

Pós-post
– Pensei em escrever esse texto no mesmo estilo da semana passada: com um breve histórico do movimento. Pesquisando o material, vi que isso seria impossível. O Hip Hop tem quatro elementos básicos (break dance, grafite, DJ e MC) que demoraraim uma vida para serem explicados, sem contar o monte de subgêneros e vertentes. Espero que tenham gostado do jeito que eu fiz.

– Para quem quiser se aprofundar no tema, tem um livro chamado “Can’t Stop, Won’t Stop – A History of the Hip Hop Generation” (não pode parar, não vai parar – uma história da geração hip hop) que parece ser muito bom. Escrito por Jeff Chang e lançado em 2005, recebeu críticas calorosas da revista New Yorker e do badalado site de música Pitchfork.

– Se você acha o máximo aquela batalhas de MCs, vá ao Studio SP no dia 17 de outubro. Lá irá rolar as eliminatórias da Liga dos MCs 2007, que pretende eleger o melhor MC do Brasil.

– A Wikipedia tem um resumão interessante do movimento Hip Hop

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: