Por onde sua agulha costura…

5 ago

OLIVEROS DIZ: Aproveitando que o Vitor Angelo escreveu sobre os valores artísticos da Moda e a Biti Averbach citou o Décio Pignatari, que em entrevista para a Folha de São Paulo, declarou: “…mas a única vanguarda que houve nesses últimos tempos, por incrível que pareça, e que me espantou, foi a moda. A moda me espantou”. Resolvi colocar um pouco de lenha nesta fogueira.

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Para quem comprou a verdade (1991), Leonilson

Na primeira edição do Zigue Zague, idéia forte da Kekei Mesquita, para discutir moda, fui convidado para falar da exposição Viés. Lá pelas tantas sempre faço esta afirmação/negação que Moda não é arte. Levanta uma estudante de moda e começa um discurso sobre se ela quiser fazer um “desfile de arte”, ela poderia, etc etc.

A resposta que me veio na cabeça, é uma frase que eu adotei para vida: Você tem que saber por onde sua agulha costura… Numa alusão direta entre a diferença de uma “roupa” ou bordado do Leonilson, e uma roupa do Herchcovitch, por exemplo. Ou seja, se alguém quer fazer arte, que faça. Se alguém quer fazer arte com roupas, as referências são inúmeras. Agora, se alguém quer fazer moda, aí a coisa muda de figura.

A frase Moda não é Arte parece soar quase como um insulto. Ao contrário. A língua portuguesa é um perigo, quando você afirma algo pela negativa, tem-se a impressão que é um comentário perjorativo. Neste caso, garanto que não é.

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Comme des Garçons (2000) em Colors, curada por Viktor&Rolf no Mori Art Museum em Toquio

No século XX, a Moda foi ganhando uma tal importância, que foi conquistando outros terreiros. Teses acadêmicas, exposições em lugares consagrados e todo mundo falando: Hum…este vestido de fulano é uma verdadeira obra de arte.

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Vestido (1911) de Paul Poiret em exposição no Met

Assim, uma figura de linguagem, uma metáfora, foi se tornando uma verdade, que muita gente começou a acreditar que a Moda enfim poderia ser Arte. Ledo engano.

Um vestido como o de Issey Miyake, por mais belo, importante que possa ser, por mais que seja exibido em museus, ele nunca vai ser uma obra de arte, strictu sensu. Ele não foi concebido como objeto de arte, e sim, como uma roupa que tem um significado importante para a história da moda e dos costumes.

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Vestido (1989) de Issey Miyake

O que eu sempre me pergunto é: mas porque diabos a Moda precisa destas “muletas” para afirmar sua importância? Porque ela tem que ser reconhecida por outras linguagens e ser referida como um bem artístico?

A Moda tem sua importância per si. Ela pode tomar de empréstimo qualquer outra manifestação para que sua verdadeira manifestação aconteça: vestir algo em alguém.

A Academia (como eu chamo a universidade, escolas e afins) tem reconhecido o papel da Moda, porque as roupas revelam muito mais sobre uma época e um período, do que a própria Arquitetura, em muitos casos. É um documento valioso para se entender as mudanças sociais, a cultura de um povo.

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Instalação de Alexander McQueen para Radical Fashion no V&A Museum

Mesmo que muitos criadores insistam em olhar o passado, e sempre temos estas ondas que vão e vem de revivals das décadas de 80, 70, 60, 40 e 20, as roupas, as técnicas, os tecidos e até mesmo a silhueta, não são as mesmas. A capacidade de se reinventar, mesmo parecendo chover no molhado que a Moda tem, é fascinante. Por isso, é um documento valioso e confiável. Até mesmo de um certo marasmo escapista de um determinada época.

Esta foi uma das reflexões mais importante que fiz depois da Viés: afirmar a importância da Moda pelo que ela é, e não somente pelas relações que ela possibilita. Se ela ocupa um lugar de destaque em museus, não é porque ela se parece com arte, e sim, porque aquela roupa que está lá, é Moda mesmo, com M maiúsculo, sabe como?

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Instalação de Azzedine Alaïa para Radical Fashion no V&A Museum

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12 Respostas to “Por onde sua agulha costura…”

  1. Samuel Mendes Vieira 5 de agosto de 2007 às 10:53 pm #

    Concordo, pq vc soube dar a moda um status de individualidade, não tinha parado para pensar por esse prisma, moda é independente, traduz a sensibilidade e desejo de uma determinada época, é sem dúvida o melhor registro histórico, não só dos costumes, mas de todos os aspectos que permeiam um contexto. Adorei a explicação Oliveiros!! Beijos!!

  2. Luigi 6 de agosto de 2007 às 11:09 am #

    Posso tirar uma dúvida? Seguinte, eu também acho que moda não é arte, apesar de que algumas vezes pode parecer muito, principalmente no processo criativo, só para deixar claro. Mas lembro de quando estudei história da arte na faculdade, que li em alguns livros e até minha professora dizia que a partir da arte contemporânea quem diz se algo é arte ou não, é o próprio artista. Ai, me pergunto, se um estilista diz que sua roupa é arte, como que fica?

    Bjo bjo!

  3. forademoda 6 de agosto de 2007 às 9:13 pm #

    Oi Luigi. Vamos lá. Na sua própria dúvida está a resposta: a partir da arte contemporânea quem diz se algo é arte ou não, é o próprio artista. Então é o artista que responde pela sua arte, não o estilista. Quando o Jum Nakao, Herchcovitch, Gaultier, por exemplo, intervèm no mundo das artes plásticas, é claro, que a formação e a experiência com a moda contam muito no resultado final, mas não é o estilista em questão que estão fazendo arte. O Herchcovitch participou da Viés com uma instalação de arte, onde suas roupas faziam parte da obra. Com o Jum Makao fui curador em duas oportunidades para apresentar seu trabalho como artista. Eles, enquanto estilistas fazem roupa para o uso. Eles enquanto artistas fazem instalações, esculturas, que podem ter a roupa como fundamento, como foi o caso do Gaultier e seu vestido feito de pães. Mas o produto final não é um vestido. Dá para entender?

  4. gamborialist 7 de agosto de 2007 às 11:05 am #

    na verdade, não necessariamente… Se tomarmos como verdade a definição de arte como algo que provoca catarse (identificação pessoal com o objeto), poderíamos pensar em uma indumentária cujas características (tecido, corte, modelagem e estrutura) provocasse identificação tal que tornasse a roupa em mais do que roupa para vestir, cobrir o corpo e sim em arte. Concordo com a definição (e diferenciação) entre projetos como o de Jum Nakao e os desfiles como um todo. Talvez o ponto onde eu queira chegar é que a Moda não necessariamente é arte, mas se tomarmos certos aspectos como o que deu origem a roupa e seu impacto social, antropológico, a moda pode sim, ser uma arte. Concordam?

  5. mariana rocha 9 de agosto de 2007 às 4:40 pm #

    olha tô falando lá também no meu blog que ainda está em fase de construção, graças ao meu momento “strage neck”.
    beijos a todos e adoro as conversas. também quero!!

  6. jussiara 9 de setembro de 2007 às 12:04 am #

    A achei interessante a discussao nao sou da area da moda mas professora em arte visuais e recentemente fiz uma oficina que consiste em absorver que o vc viu na exposicao para criacao de figurino. Descuplpe-me senao estou usando os termos apropriados.
    Esta oficna para mim foi trabalhar a arte( a imagem) atraves da moda, estaria certo usar a moda como um conceito de tipo de linguagem da arte.
    gostaria de ouvir a sua opiniao.

  7. Valéria Diniz 12 de novembro de 2008 às 6:07 pm #

    Olá, Ricardo Oliveiros! Tudo bom?
    Bem, eu sou estudante de Educação Artística da Universidade Federal do Maranhão. Estou concluindo o curso, em fase de monografia e escolhi como tema: “As influências da Arte Contemporânea na Moda”. Uma das questões que gostaria de abordar é o status da moda enquanto possibilidade artística.
    Você falou acima que “os estilistas, enquanto artistas, fazem instalações, esculturas, que podem ter a roupa como fundamento […]Mas o produto final não é um vestido.
    Mas o que você me diz a respeito de Moda Conceitual? Muitos desfiles apresentam roupas que não foram feitas para usar e o que se expõe alí é puramente criação e que, no entanto, mostram as tendências enquanto cores, formas, texturas [termos que geralemnete etão abrigados em fundamentos da linguagem visual]. Não estou dizendo que a Moda seja confundida com Artes Plásticas, mas que ela tenha seu cárater único como o Cinema e a Fotografia ganharam. E ainda, assim como a arquitetura, a moda não poderia estar inserida em artes aplicadas?
    Agradeço!

  8. camila carvalho 3 de julho de 2009 às 7:54 pm #

    Sou formanda do curso de ed. artistica/artes plasticas da UFPE. A questão entre Arte e Moda rende muito pano para manga. Depois de ouvir tantos conceitos sobre o que é Arte( por vezes pretenciosos, arcaicos e bastante elitistas)e sobre se Moda é uma manifestação artistica, fica a impressão de que a moda consegue uma reposta por parte do público muito mais significativa do que a arte que vemos em galerias. A arte, “por fazer tanta questão de ser arte” vira algo inacessivel e quase intolerável enquanto a Moda tem um alcance comunicativo mais concreto.Um professor de meu curso certa vez alegou que a Arte em sí não tem função, serventia alguma. Então seria esta a diferença essencial entre Moda e Arte? A Arte não serve para nada e a Moda tem uma função, serve a um objetivo especifico, fomenta um mercado, gera empregos,toda uma economia etc, etc, etc. E o que é Arte para mim ou para vc? Arte pode ser qualquer coisa segundo a minha ou a sua concepção, referencias sociais, históricas e/ou culturais? Do que adianta um status mor de ARTE se quem a contempla não decodifica ? O circulo das Artes Plásticas sob o véu da arte contemporânea construiu uma redoma de vidro para com isso se auto classificar? As vezes soa exatamente isto!Talvez então a louvada ARTE so sirva única e exclusivamente para quem faz parte do seleto grupo do círculo das artes plasticas por que fora dali não representa muita coisa(afinal de contas, a gente comum não entende muito bem a tal da arte contemporânea). Seguindo por esta linha realmente, a Moda não precisa ser Arte. Na verdade, a Moda está se lixando para a Arte ou mesmo, seria até um insulto chamar Moda de Arte!Ou quem sabe ARTE é uma coisa que colocaram na sua ou na minha cabeça …

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