Moda pra Ler entrevista: Maria Claudia Bonadio

12 ago

Laura diz: Daqui a pouco transfiro a coluna pra domingo (rs). Desculpas e atrasos a parte, essa semana a entrevista tentou mostrar um pouco do lado acadêmico da moda com a professora Maria Claudia Bonadio.

O que há por traz do mundo da moda? Quais são seus significados? Qual sua importância? Em busca de desvendar essa e outras questões muitos pesquisadores em todo mundo estudam os elementos da moda.

Aqui no Brasil as faculdades de moda existem há pouco mais de 20 anos. Alguns profissionais como João Braga, Kátia Castilho e Carol Garcia, além de outros teóricos, têm dado sua contribuição com maestria. Apesar da pesquisa acadêmica sobre moda ainda engatinhar por aqui, o time de desbravadores vem crescendo. Maria Claudia Bonadio, professora do bacharelado em Design de Moda e mestrado em Moda, Cultura e Arte do Centro Univesitário Senac, já publicou textos e lança agora seu primeiro livro “Moda e sociabilidade: Mulheres e consumo na São Paulo dos anos 1920” e engrossa a bibliografia de moda brasileira.

Bonadio nasceu em Sorocaba e se formou e pós-graduou na Universidade Estadual de Campinas. O livro é baseado em sua tese de mestrado e nessa entrevista ela conta ao Moda pra Ler sobre sua primeira publicação e sobre a pesquisa acadêmica de moda no Brasil.

Como foi a metologia de pesquisa?
Para realizar a pesquisa de mestrado que deu origem ao livro analisei a publicidade veiculada pelo Mappin Stores no jornal O Estado de S. Paulo entre 1913-1930 e também os editoriais de moda escritos por Marinette e publicados na Revista Feminina entre 1914-1926. A análise dos anúncios do Mappin Stores e da seção “A Moda” da Revista Feminina além de fornecerem dados para o estudo da inserção das mulheres das camadas médias e altas no espaço público, proporcionam também a observação das tensões inerentes ao crescimento da cidade, pois os anúncios da loja (publicados diariamente no jornal O Estado de S. Paulo) frisavam ser a loja um espaço para as mulheres de elite, acabava por despertar o desejo de consumo e consequentemente uma espiada em sua vitrine nas mulheres das camadas médias e baixas. Já a leitura da seção “A Moda” da Revista Feminina deixa entrever que nessa cidade em crescimento, conviviam pelo menos dois tipos distintos de mulheres, aquelas mais afoitas por novidades e provavelmente simpatizante das novas modas propagadas pela revista, e outra mais apegada a tradição e que apesar de vestir-se na moda não aceitava todas as novidades e fazia questão de frisar a importância do seu papel de mãe e esposa. Ou seja, ainda que revista e loja dirijam-se a públicos específicos, as imagens difundidas por ambas eram de certa maneira consumidas em menor ou maior escala por mulheres de diferentes segmentos, idades e classes sociais.

Qual a importância de estudarmos a história da moda brasileira?
Para responder essa questão vou começar citando Roland Barthes para quem o vestuário, e por conseqüência as modas, podem ser considerados objetos dotados de significação cultural, ou seja, na medida em que esse objeto está inserido numa cultura e é expressão desta, o estudo da história da moda, não revela apenas a mudança nas formas, cores e tecidos em voga, mas também as significações culturais, sociais e econômicas inerentes ao contexto em que esse objeto está inserido. Em outras palavras e citando agora Daniel Roche “a moda é um dos sinais que manifestam de modo mais profundo uma sociedade, uma economia, uma civilização, revelando seus impulsos, potencialidades, reivindicações e alegria de viver”. Portanto, o estudo da história da moda, pode nos abrir novos ângulos para entender as muitas histórias do Brasil, como por exemplo, a história das mulheres, história econômica ou mesmo a história política. Há trabalhos muito bacanas nessa área, como por exemplo, o estudo do Jefferson Queler, que estuda em seu doutorado a campanha do Jânio Quadros para a presidência nos anos 60 e dedica algumas páginas para a análise dos significados políticos que a adoção do slack (aquele terninho “safári” usado que ficou associado ao Jânio) tem para a construção da imagem do candidato.

O que te motivou a pesquisar esse período?
O interesse pelo período surgiu ainda na graduação, quando encontrei no Centro de Memória da Unicamp um texto escrito por Amélia de Rezende Martins publicado em 1920 (educadora) no qual ela bradava contra as modas em vigor naquele período. A fim de entender o que é que tanto incomodava a escritora fui pesquisar que mudanças haviam acontecido na moda e notei que a proposição da silhueta retilínea, os cabelos a la garçonne e o encurtamento das saias, mudava radicalmente a aparência, e também a simbologia do feminino, pois se a silhueta em vigor desde de meados do século XIX ressaltava as formas femininas (ancas, cinturas e seios) e associava o corpo da mulher à condição de reprodutora, já as novas modas aproximavam a silhueta feminina da masculina e esfumaçavam as fronteiras entre os gêneros. Ou seja, inicialmente o que me chamou a atenção foi o impacto que a mudança da silhueta e aparência feminina teve sobre a sociedade.

Como as tendências dos anos 20 aconteceram aqui em São Paulo?
Ao que pude analisar através da publicidade do Mappin e das crônicas da Marinette, as novas modas eram bem recebidas pela maioria das mulheres, mas causavam polêmica entre os mais conservadores que entendiam os cabelos curtos e a silhueta feminina como uma distorção do feminino e uma masculinização da mulher. A Revista Feminina traz exemplos bem interessantes a esse respeito, há textos que satirizam essa situação, como a crônica “O senhor ou a senhora”, publicada em 1925, que relata a angústia de um criado, que pela manhã não consegue distinguir quem é o “senhor” e quem é a “senhora” à mesa do café, pois ambos usam pijamas, melena (uma espécie de “gel”) nos cabelos e comentam sobre o futebol. Na mesma revista há textos que criticam a “nudez” proporcionada pelo novo vestuário, que ao invés de cobrir, descobre o corpo da mulher. Outra coisa que vale citar é que nessa época o Mappin Stores era uma loja voltada para as elites e por isso mesmo comercializava artigos provenientes de algumas das maisons de maior prestígio na Europa dos anos 20. Vestidos de Jean Patou e Drécoll eram anunciados com freqüência ao longo do mês de agosto quando acontecia a temporada Lírica no Municipal. O Chanel no. 5 chega às prateleiras em 1928.

Foi um período revolucionário? Mais que as décadas seguintes?
Eu acho que a mudança nas formas das roupas ocorridas na década de 1920 são impactantes exatamente por quebrar o antagonismo entre as aparências masculina e feminina que vigorou durante todo o século XIX. A meu ver a moda tem um papel de destaque nesse período pq ao contrário do que acontece na década de 1960, a “revolução” se dá muito mais no plano das aparências do que no cotidiano, nos anos 1960, a minissaia vem acompanhada da pílula anticoncepcional, da revolução sexual, etc. Na década de 20, a liberalidade das roupas não muda o status da mulher, especialmente aquelas das elites e camadas médias, que apesar de aderirem aos cabelos e saias mais curtas, não abandonam o papel de mãe-esposa e dona de casa. Para esse grupo talvez, as maiores “revoluções” tenham sido a mobilidade proporcionada pelas novas roupas e também o consumo dessa nova imagem.

A sua tese mostra que sair para comprar roupa ajudou a mulher a se sociabilizar. É isso? Como aconteceu esse processo?
O que ocorre é que até o início do século XX, a cidade era um espaço masculino por excelência e exceção feita às mulheres mais pobres que muitas vezes trabalhavam nas ruas como vendedoras de quitutes por exemplos, mulheres de camadas sociais mais abastadas raramente eram vistas circulando pelas ruas. O espaço público, de circulação livre, era considerado um espaço mundão e pouco recomendando às mulheres de certa posição, uma vez que ali todos se misturavam. A própria configuração das cidades não trazia muitos espaços para a sociabilidade feminina, nas grandes cidades da Europa, como Londres e Paris, por exemplo, a Igreja, o salão de chá e a loja de departamentos são os únicos espaços reservados para essas mulheres. Nesse contexto as lojas de departamento configuram-se num espaço privilegiado para esse grupo primeiro por que diferentemente do que até então ocorria em outros espaços comerciais, a mulher podia circular livremente, observar e tocar as mercadorias mesmo que não pretendesse comprar. Além disso, apesar de trazerem seções masculinas, essas lojas se configuram como espaços femininos, ou seja, a maior parte das seções é dedicada à mulher e à casa. Em muitos casos mesmo quando a loja anunciava um produto masculino, era à mulher que a propaganda se dirigia. Assim a loja de departamentos era um espaço protegido, dentro da cidade, um espaço de livre circulação destinado quase que exclusivamente às mulheres. O estudo das propagandas do Mappin evidencia isso, pois observamos que além de produtos a loja anunciava também serviços e espaços destinados às mulheres, como: o salão de beleza, babás para cuidar das crianças, um salão de beleza infantil e em especial o salão de chá que funcionava como ponto de encontro para essas “mães e esposas”.

A pesquisa acadêmica na área de moda está em crescimento. Há alguma dificuldade para quem quer se dedicar a lecionar disciplinas relacionadas a moda? Essa questão eu só posso responder a partir da minha experiência. Como dou aulas em cursos direcionados para a moda, a receptividade é sempre muito boa. Em minha opinião a academia está se abrindo para esse tema e se o trabalho for rigoroso em bem elaborado, certamente será bem recebido.

O Brasil ainda tem muito o que crescer no sentido de pesquisa acadêmica de moda. Você pode mensurar o que a falta de pesquisa acadêmica reflete no mercado de moda? Um ajuda o outro?
Eu não sou uma pessoa do mercado, mas o que eu percebo é que existe sim um grande interesse por parte do mercado a respeito de um conhecimento mais erudito em termos de moda, até porque o mercado precisa se refinar, estar em sintonia com o seu público para pensar seus direcionamentos. Na pesquisa que realizei para o doutorado, entrevistei muita gente que atuou e ainda atua fortemente no mercado e indústria da moda, fui muito bem recebida por todos. Aliás, apesar de se inserir no que dentro das ciências humanas chamamos de história cultural, meu trabalho de doutorado é também uma história do crescimento do mercado da moda no Brasil e das estratégias usadas pela publicidade para ampliar esse mercado. Além disso, se pensarmos nos números gerados pelo mercado, não dá para dizer que moda é um objeto desprezível pela academia, muito pelo contrário.

***
O lançamento do livro “Moda e sociabilidade: Mulheres e consumo na São Paulo dos anos 1920”, que acontece dia 13/08 às 19:00 na Fnac Paulista.

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3 Respostas to “Moda pra Ler entrevista: Maria Claudia Bonadio”

  1. Glauco Sabino 13 de agosto de 2007 às 5:52 pm #

    Laurinha, suas entrevistas são tão legais, que compensam o atraso. Aliás, quem não atrasa, né? Hehehehe… Bjo!!!!

  2. dusinfernus 30 de agosto de 2007 às 3:34 am #

    que ótimo ler essa entrevista pois quero entrevistar a kathia castilho e foi de uma grande ajuda, além do tema ,os anos 20, ser tão fascinante

Trackbacks/Pingbacks

  1. Moda Sem Frescura - 13 de agosto de 2007

    […] info By Biti Averbach Categories: livroemoda Tem visitado o BlogView? Neste final de semana, a amiga e jornalista Laura Artigas publicou lá uma entrevista muito boa […]

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