Por onde costura a agulha de Karlla Girotto

13 ago

OLIVEROS DIZ: Fim de domingo, já quase 1 da manhã. Por causa do texto Por onde sua agulha costura, as reflexões de Mariana Rocha, todos os comentários e, em especial, o artigo do Vitor Ângelo, O complexo de inferioridade da moda, fiquei pensando em várias coisas esta semana. Perguntas me rondaram a cabeça, como a afirmação da moda enquanto linguagem autônoma, onde começa a arte, onde começa a moda, em um tempo em que as linguagens cruzam as fronteiras.

Temos muitos exemplos de estilistas/artistas que procuram romper com os limites das linguagens como Jum Nakao, Karlla Girotto, Adriano Costa, Alexandre Herchcovitch, Ronaldo Fraga, entre outros.

Pensei em me aprofundar nestes criadores, a começar por Karlla Girotto. A estilista ficou conhecida por seus desfiles performáticos, que buscam fugir da bidimensionalidade visual das passarelas. Já nos tempos da Casa dos Criadores, as apresentações causavam impactos com seus anjos caídos, suas patas de fauno, os quais prenunciavam que não estávamos diante do convencional.

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Polissemia N (2003), Suzy Okamoto e Karlla Girotto

Em 2003, ela costurou pérolas na sua própria pele. A pele se tornava uma roupa, apesar da aparente nudez.

Na Galeria Vermelho, em 2004, ela fez um desfile-instalação: as modelos ficavam paradas e o público que se movimentava.

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Depois, na sua estréia do Fashion Rio uma apresentação aberta nos jardins do MAM, com móveis antigos, mulheres-morcego, que causou furor entre cinegrafistas e fotógrafos, que tinham que abandonar a idéia do pit de fotógrafos que sempre privilegia, uma visão de um único ponto de vista.

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Em seguida, nos mesmos jardins do MAM a radicalidade aumenta. As modelos dormiam por longo período em camas longas, expostas quase como bonecas, com seus sapatos aprisionados em gaiolas. Na Viés, teve um desdobramento deste trabalho, que só podíamos presenciar o início da performance e o final.

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A performance “Invisível”, consiste numa mulher que dorme com a roupa durante uma noite na Galeria Vermelho. Seu sono é velado por um homem que usa uma roupa em que se assemelha a um animal. Embaixo uma mulher representa o tempo. Eles permaneceram lá durante a noite, sem que ninguém pudesse presenciar a ação. Era o inverso da superexposição que ela sofreu nos desfiles cariocas.

 

 

Atualmente, ela pertence ao casting da Galeria Florence Antonio, ao lado de outros artistas que trafegam em diferentes setores da moda, como Hugo Frasa, que produz trilhas para desfiles. Aliás, está em cartaz virtualmente os trabalhos do estilista Flaminio Jallageas e de Andrés Sandoval, que desenha estampas para Néon.

 

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Sem título, 2005

Ou seja, agora Karlla, que continua com seu atelier, tem um lugar onde seu trabalho vai continuar a nos desafiando a entender os não-limites entre arte e moda. A artista/estilista incorpora, em termos, o que Baudelaire chamaria de “um elemento relativo, circunstancial, que será, se quisermos, a cada vez ou de uma só vez, a moda, a moral, a paixão. Nele reside toda a ambivalência da temporalidade: o passageiro e o frágil, i.e., a modernidade e a tragédia da existência”.

Quando digo que ela incorpora “em termos”, porque percebo sim, a tragédia da existência, que está sempre presente, seja nos desfiles, seja na arte da Karlla Girotto, em que são expostos desejos, medos, sentimentos que passam muitas vezes invisíveis como as costuras que estruturam uma roupa, mas que sem elas, as roupas simplesmente deixariam de existir.

Todavia, seu fazer artístico está em sintonia com a contemporaneidade, onde as pontes são em maior número, que sequer sonhou a modernidade.

 

 

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Registro da performance Natureza Morta, 2005

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6 Respostas to “Por onde costura a agulha de Karlla Girotto”

  1. dusinfernus 13 de agosto de 2007 às 2:54 am #

    olivegas, acho que faltou um momento importante dela na sua análise. exatamente a ação dela com sua curadoria na vermelho com a revoada dos pássaros e a roupa construída com a idéia de pássaros.
    talvez essa ação ajude a compreender um pouco mais a noção de tempó em Karlla Girotto e como ele se dá. Tenho a impressão que foi o tempo que a fez deixar a sala de desfiles durante um tempo. entender o tempo da moda e os possíveis tempos de sua strutura.

  2. Glauco Sabino 13 de agosto de 2007 às 5:44 pm #

    Cada vez que leio você aprendo mais um pouco… Na minha cabecinha, ninguém mais além do Jum Nakao tinha esse quê performático/astístico. Adoro quando descubro coisas novas! Tnx Oliveros… :-)))

  3. Edge 16 de agosto de 2007 às 8:54 pm #

    Eu já havia lido o seu artigo “Por onde sua agulha costura” e depois este de Karla Girotto e fiquei pensando sobre outras coisas.
    Vide http://blog.jesuis.com.br/2007/08/15/ciclo/ Abraços

  4. Agnaid Lins Jacome Tenorio 10 de novembro de 2007 às 3:09 pm #

    Eu peco por favor que retirem essa minha mensagem para Karla Girotto,que passei em 13 de agosto/07 e nunca recebi uma resposta, contudo vcs a expoem no google sem que eu saiba. Nesse momento estou na casa de minha filha aqui em N.Y. onde vim para esperar ao lado dela o nascimento do seu primeiro filho.O seu marido e homem de negocios e ela nao poderia saber disso nunca.Como fica a minha situacao diante dessa mensagem que fiz, e nunca poderia advinhar que estaria exposta. Por retirem imediatamente.Agnaid Lins.

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