Consumo do bem

25 ago

GLAUCO DIZ: Em tempos de Criança Esperança, fiquei pensando na quantidade de iniciativas que existem hoje em prol de alguma coisa, de qualquer coisa. Não que eu não ache válido ajudar as criancinhas, os velhinhos, as baleias, as árvores… Mas, frente a essas milhares de campanhas para arrecadar dinheiro, não é de se espantar que as pessoas façam cada vez menos caridade. “Se eu for ajudar todo mundo que me pede, sou eu que vou precisar levantar fundos pra viver…” é uma frase muito comum de se ouvir. É por isso que, de uns tempos pra cá, grandes campanhas para arrecadar dinheiro vêm envolvendo cada vez mais o consumo (esse sim, nunca para de aumentar) de um produto.

Lembra-se daquelas pulserinhas da Livestrong? Lançada em 1999, o fruto da parceria entre a Lance Armstrong Foundation e a Nike virou febre mundial. (Quase) todo mundo tinha uma. A original era amarela, mas depois de um tempo dava para encontrar todas as cores em qualquer camelô… Comprava-se porque “tá na moda” sem que ao menos as pessoas soubessem qual era a razão daquilo mais. Sem dúvida, um aspecto negativo desse tipo de estratégia de marketing das ONGS.

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As pulseiras originais da Livestrong…

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… E as fakes.

Propaganda da Nike sobre a fabricação das pulseiras

Mas, por outro lado, há de se concordar que se a única linguagem universalmente compreendida é a do consumo, é mais do que justo utilizá-la a favor de coisas positivas. Um exemplo muito bom disso é a Red. Criada para arrecadar recursos para o Fundo Global de combate à Aids na África, além da malária e da tuberculose, a campanha pintou de vermelho produtos de grandes empresas como Apple, Motorola, GAP, Armani e Converse.

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Linhas de produtos Red: Gap, Apple, Motorola, Armani e Converse são alguns exemplos

O queridinho do momento, Mika emprestou a voz para a propagada da Motorola sobre o celular Red

A revista americana Vanity Fair, inclusive, entrou na onda dedicando sua edição de Julho a matérias e entrevistas sobre o Red e a situação na África. Além disso, lançaram em parceria um CD no iTunes com músicas de artistas africanos. Todo dinheiro da venda das faixas foi e está sendo destinado para a causa. “A Red não é caridade, é simplesmente um modelo de negócio. Você compra coisas ‘vermelhas’ e nós conseguimos o dinheiro. Compramos os remédios e os distribuímos. Assim conseguem continuar vivos e cuidar de suas famílias”, afirma o manifesto da campanha. Em maio de 2006, a Red entregou seu primeiro US$ 1 milhão ao Fundo Global para suas atividades em Ruanda. Em setembro, outros US$ 9 milhões foram para essa nação e a Suazilândia, um dos países africanos mais afetados pela Aids.

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A revista Vanity Fair fez 20 capas com diferentes personalidades. A idéia era criar a sensação de que um passava a idéia para o outro…

Bono Vox fala do seu trabalho como “editor convidado” da edição especial da Vanity Fair África

Aqui no Brasil, não poderia deixar de citar a Campanha “O Câncer de Mama no Alvo da Moda”. Nascida nos Estados Unidos, em 1994, por iniciativa do CFDA (Council of Fashion Designers of America), é realizada há 12 anos no Brasil pelo IBCC – Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Nesse período, o alvo azul desenhado por Ralph Lauren em homenagem à sua amiga e jornalista, Nina Hyde, que morreu de câncer de mama em 1990, estampou inúmeros produtos licenciados por empresas como Hering e Rainha, além de coleções assinadas por estilistas como Isabela Capeto e Marcelo Sommer. Segundo dados do próprio IBCC já foram vendidas mais de 7 milhões de camisetas do “alvo” e arrecadados mais de R$ 40 milhões desde o início da campanha. Esses recursos permitiram ao hospital ampliar em três mil metros quadrados a sua área e subsidiar parte dos atendimentos médicos, dobrando o volume de consultas, mamografias e cirurgias.

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Linha de produtos “do Alvo”: Hering, Ronaldo Fraga, Rainha e Isabela Capeto são alguns exemplos

 

Consideração

Com os exemplos acima, tudo indica que esse modelo de arrecadação de fundos é o futuro (e o presente) das ONGs. Mas há, na minha opinião, uma consideração importante: cria-se a sensação de que comprando, as pessoas já terão feito a parte delas. Você compra o seu ipod Red e pode dormir ouvindo música tranquilamente sabendo que ajudou quem nem sabe o que é ter uma cama… Parece simples demais. Tão simples que banaliza questões que devem ser discutidas, cobradas e tratadas com mais seriedade por todos. Se além de comprar, cada um pudesse doar um pouco do seu tempo, um pouco do seu poder de espalhar e difundir idéias, talvez a coisa seria bem melhor, não acham?

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5 Respostas to “Consumo do bem”

  1. dusinfernus 29 de agosto de 2007 às 11:31 pm #

    você coloca pontos importantes como o fato de se consumir algo com selo de caridade já estaria fazendo minha parte e tem a questão do consumo, nada vai adiantar se contiuarmos acelerando tanto o consumo.
    seu texto abre uma discussão super pertinnte hoje na moda, sobre a culpa da moda
    e o consumo não é tão do bem não
    texto importante e instigante!

  2. Glauco Sabino 30 de agosto de 2007 às 12:01 am #

    Pois é… Talvez eu deva mudar o nome do post para “Consumo do bem?”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Consumo do bem « Descolex - 27 de agosto de 2007

    […] de arrecadação de fundos com a venda de roupas e outros artigos de moda. Está bem bacana. Passa lá! Nenhum Comentário até o momento Deixe seu comentário Feed RSS dos comentários neste […]

  2. ECOLOGIA E MODA (A BONDADE?) « BlogView - 7 de setembro de 2007

    […] aqui no Blog View já escreveu sobre uma outra tendência que está ligada por muitas amarras com o ecologicamente […]

  3. BLOGVIEW REVISITED: ECOLOGIA E MODA (A BONDADE?) « dus*****infernus - 20 de março de 2008

    […] Sabino aqui no Blog View já escreveu sobre uma outra tendência que está ligada por muitas amarras com o ecologicamente […]

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