A imagem da moda vale mais do que a moda?

30 set

OLIVEROS DIZ: A cada semana de moda o que queremos saber é qual a imagem da temporada. Expressões surgem alucinadamente em busca de sínteses: FePower, Mulher Neoromantica, Guerreira Urbana, para definir quais as imagens que devemos consumir e atualizar nossos desejos.

Não quer dizer que saímos por aí comprando Prada e Marc Jacobs e sim como interpretamos e viabilizamos essas imagens. Por exemplo, quem não tem dinheiro para Balenciaga, usa um kadaieff e está tudo certo. Automaticamente você deu um up-grade no guarda-roupa.

balenciaga.jpg kadaief1.jpg

Comecei a pensar na relação entre imagem+moda e os textos e sub-textos que estão presentes neste binômio.

O texto hoje não é feito por palavras somente.Temos uma nova geração toda condenada porque aparentemente não lê. Acho que mudaram as formas de leitura e de texto e a imagem se tornou, de fato, um texto.

Christoph Wulf constrói uma crítica sobre esta questão. Ele faz uma revisão da história da imagem. Sua história começa quando as imagens ainda não haviam se tornado obras de arte, faziam parte imagens mágicas, imagens de culto, imagens sacras. Depois, explica que as imagens tornam-se representações de algo que não são. Representam algo, expressam algo, remetem a algo.

Sobre o momento atual, Wulf afirma: “Além de textos, pela primeira vez na História da humanidade também imagens são armazenadas e transmitidas para outras gerações, em um volume inimaginável. Fotos, filmes, vídeos tornam-se ajudas mnemônicas; surgem memórias imagéticas. Se textos até agora precisavam da complementação de imagens imaginadas, a imaginação hoje é limitada pela produção de “textos imagéticos” e sua transmissão. Cada vez menos pessoas são produtores, cada vez mais pessoas se tornam consumidoras de imagens pré-fabricadas que praticamente não desafiam a fantasia’.

Mais a frente, declara: “O caráter eletrônico de imagens televisivas possibilita ubiqüidade e aceleração. Tais imagens podem ser divulgadas com a velocidade da luz quase simultaneamente em todas as partes do mundo. Elas tornam o mundo uma miniatura e possibilitam a experiência específica do mundo como imagem. Representam uma nova forma da mercadoria e estão submetidas aos princípios econômicos do mercado. Elas mesmas são então produzidas e negociadas, quando os objetos a que se referem não se tornaram mercadorias”.

 

holzer1.jpg

Jenny Holzer e o texto de Beckett no Barbican em 2006

Na arte conceitual vários artistas se tornaram críticos da transformação da imagem em mercadoria. Jenny Holzer, por exemplo, escreve textos de filósofos e dramaturgos que são projetados em espaços públicos. Assim, seu texto se torna imagem e a sua obra vira discurso.

Utilizando outros artifícios, Michael Craig-Martin em “An Oak Tree” nos fala, entre outras coisas, na crença e no valor da percepção da arte. Ela foi apresentada no Brasil na exposição Splash!. A obra é um copo de vidro com água dentro, apoiado sobre um suporte de vidro preso numa parede. Ao lado lê-se um pequeno texto, que traz o seguinte diálogo:

Q: To begin with could you describe this work?

A: Yes, of course. What I’ve done is change a glass of water into a full-grown oak tree without altering the accidents of the glass of water.

Q: The accidents?

A: Yes. The colour, feel, weight, size.

Q: Haven’t you simply called this glass of water an oak tree?

A: Absolutely not. It is not a glass of water anymore. I have changed its actual substance. It would no longer be accurate to call it a glass of water. One could call it anything one wished but that would not alter the fact that is an oak tree…

Q: Do you consider that changing the glass of water into a oak tree constitutes an artwork?

A: Yes.

 

oak.jpg

An oak tree de Micheal Craig-Martin da coleção da Tate Modern

Assim, o artista revela que a crença na representação está no valor da arte, retomando a origem ancestral da imagem.

Uma linguagem que fez com que todos acreditassem no valor da imagem, além do cinema, é a moda. Falo desta relação em Moda como manifesto de arte

“A moda, assim como o cinema, não só faz parte da sociedade do espetáculo como também a alimenta. Atualmente, a moda nunca esteve tão em voga, tanto que virou lugar-comum afirmar que a moda está na moda. Nesse caso, não deve ser entendida como roupa, assim como o cinema não deve ser considerado, em sua essência, como filme, mas como um sistema que afirma seu tempo, que é capaz de responder às velozes mudanças num mundo midiático e tecnologizado, ansioso pela próxima novidade. Poucas são as linguagens, incluso literatura, fotografia, pintura, que podem afirmar e realizar essa façanha com tanta precisão”.

É claro, que não devemos abandonar a crítica sobre a quantidade de desejos de consumo que as imagens que a moda produz. Mas devemos avaliar que existe uma nova geração que aprendeu a ler e codificar imagens numa velocidade como em nenhum outro momento histórico.

Isso me lembra os ideogramas orientais. A palavra e a imagem não estavam dissociadas. Por exemplo , o kanji de “uma” (cavalo em japonês) antigamente era um desenho que lembrava a forma de um cavalo. Agora, nada mais é do que um ideograma de dez traços. Mas esse ideograma possui a significação “cavalo”. Faço uma associação entre internet e ideogramas: será que um dia não chegaremos a esta síntese entre palavra e imagem?

3_uma_lr.jpg

Cavalo em japonês

Acho que antes da crítica ao mundo das imagens, deveríamos atentar mais sobre como elas são lidas. O cérebro humano tem uma capacidade ímpar de adaptação. As novas gerações, nascidas sob o signo da tecnologia, tem uma capacidade de lidar com um número de informações que seus críticos não foram adaptados. Vale a pena pensar nisso.

Anúncios

5 Respostas to “A imagem da moda vale mais do que a moda?”

  1. Luigi 30 de setembro de 2007 às 4:45 pm #

    Concordo com você. Acho que ainda é muito cedo para se chegar a qualquer conclusão sobre o mundo as imagens. Essa nova geração decodificadora ainda é muito nova e pouco se sabe sobre ela. Poucos são os estudos e análises feitos por ela. Já que sobre ela temos bastante coisa a respeito, mas sempre com um certo tom nostálgico.

    Acredito que o principal problema é saber decodificar de maniera desviciada, sem manipulações. É enteder o que está por trás de determinada imagem, seu real significado, seu real objeto de representação, e não apenas sua aparência. Lógico que isso depende da vivência e experiência de cada um. O que acontece, ao meu ver, é que esta nova geração não busca experiências suficientes para poder decifrar por completo uma imagem.

    Mas adorei o post e dá assunto de sobre para várias discussões super interessantes e pertinentes!

    Beijos!

  2. Oficina de Estilo 30 de setembro de 2007 às 5:50 pm #

    adorei você com o lenço. =)

  3. Laura 8 de outubro de 2007 às 4:25 pm #

    Pensei muito a respeito desse lenço na viagem. Lá todo mundo está usando. Será um leve aval para as novas invasões bárbaras da europa?
    adorei o Meme… sábado vou voltar a postar, finalmente e coloco por lá.
    Tenho que pensar, é muito difícil.
    beijos

Trackbacks/Pingbacks

  1. Coluna de domingo no Blog View « fora de moda - 30 de setembro de 2007

    […] Coluna de domingo no Blog View Hoje estou meio Piauí. Acabei escrevendo mais do que devia sobre as relações enre imagem, moda e arte. […]

  2. Peter Greenaway fala sobre a morte do cinema « fora de moda - 4 de outubro de 2007

    […] A frase de Derrida fica ali ecoando na minha cabeça: A imagem é a última palavra. Esse é o tema central do meu post no BlogView: A imagem da moda vale mais do que a moda? […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: