Arquivo | outubro, 2007

Black is beautiful

31 out

GLAUCO DIZ: Ontem fui ao dentista e resolvi folhear um NY Times que estava dando sopa por ali. Dei de cara com o suplemento de “moda e estilo”, que trazia uma interessante reportagem sobre a ausência de modelos negros nas passarelas. Segundo o jornal, dos 101 desfiles da temporada primavera-verão 2008 do NY Fashion Week, mostrados no site Style.com, mais de 30 não utilizaram um modelo negro sequer.  (Raras exceções foram Diane Von Furstenberg e a marca Heatherette, do duo Richie Rich e Traver Rains, que trouxeram mais de 5 negros para seus shows).

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Os três primeiros looks são de Diane Von Furstenberg; os três últimos, da Heatherette (Crédito: Style.com)

A reportagem segue contando o caso de um booker da agência Marilyn, que já recebeu solicitações de clientes com claras recomendações de “caucasians only” (apenas brancos), além de histórias de produtores de elenco. Esses afirmam que enviam as meninas para as seleções e, na maior parte das vezes, o que ouvem como resposta é que “ela é linda, mas infelizmente não é a certa para o trabalho”. Ainda, segundo os responsáveis por agenciar as moças, as negras só são escaladas quando o tema da coleção é de alguma forma relacionada à floresta, ao “jungle”.

Aqui no Brasil a história não é muito diferente. Uma rápida olhada nas fotos disponíveis por aí e a gente saca que a loirice é o que domina mesmo.  Tanto que o editor da revista Vanity Fair, Michael Roberts, se surpreendeu com o “exército de meninas brancas” nas passarelas do Fashion Rio. “O Brasil deveria aproveitar mais sua diversidade”. “É uma vergonha”, declarou à agência Reuters na época.

Aqui vale fazer uma ressalva. O estilista Marcelo Sommer utilizou um casting 100% negro nos desfiles do AfroReggae, no último SPFW. Tudo a ver com uma grife que é justamente inspirada na cultura negra.

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Desfile do AfroReggae (Crédito: Chic)

Camila Pitanga e Alexandre Herchcovitch também comentaram o assunto. Durante o SPFW, a atriz declarou que a falta de modelos negros no evento “espelha essa resistência, esse preconceito que infelizmente ainda está presente na nossa sociedade”. Já para o estilista, o problema é outro. “A oferta de modelos negros é menor”, disse à Reuters. “São as agências (de modelos) que têm que fazer um trabalho maior para recrutar mais negros, não acho que é culpa do estilista.”

Concordo com os dois. O preconceito racial está presente em todas as esferas da sociedade, nas mais diversas indústrias. Porque com a moda seria diferente? Mas, isso não significa que podemos sair por aí defendendo a idéia de que a moda é pura e simplesmente preconceituosa. Não gosta dos negros e pronto. Ela também é gerida por questões de mercado (como Alexandre aponta) e também por questões básicas do meio: não é porque a modelo é negra que ela vai entrar nesse ou naquele casting. Ela precisa, antes de tudo, ser bonita e atender aos requisitos básicos de qualquer boa profissional.

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(Só) Algumas das modelos negras mais poderosas: (da esq. para dir.) Alek Wek, Liya Kebede, Emanuela de Paula e Tyra Banks

A questão, ao meu ver, está mesmo em fazer que anunciantes, donos de empresas e estilistas passem a entender que ao não colocarem mais negros em seus desfiles e anúncios, eles só estarão perdendo o poder de consumo da mulher negra. Afinal, de acordo com estimativas do Target Market News, elas gastam sozinhas mais de 20 bilhões de dólares em aparência a cada ano!

Em tempo: no meio dessa discussão toda, Naomi Campbell anunciou seus planos de abrir uma agência no Quênia dedicada exclusivamente aos modelos negros. Daí, a perguntinha podre: estaria ela realmente interessada em lutar pelos negros ou seria apenas uma estratégia de marketing feita na hora certa?

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Reinvente-se

30 out

LUIGI DIZ: Antes de começar preciso pedir desculpas pelo atraso da coluna. Passei a segunda toda de ressacón do Tim Festival e cheio de coisas para entregar na faculdade. Acabou que não deu tempo de escrever sobre o Tim, como pretendia.

Melhor, porque agora achei outro tema, mais a ver com moda mesmo. É que foi publicada hoje, no jornal WWD, matéria falando sobre reinvenções de marcas. O tema é super atual e tem bastante a ver com aquele outro assunto da coluna de algumas semanas atrás, os grupos de moda (grupos gestores).

Vale a pena ler a matéria, que parece longa, mas nem é tanto, porque lá fica claro o que parece óbvio para os mais interados na indústria da moda, porém que não é tão evidente assim para os demais interessados no assunto. “Marcas, assim como as pessoas, tem ciclos”, disse Marc Gobé, co-fundador, presidente e chefe executivo da Desgrippes Gobé. “Tem a gestação, o amadurecimento, o envelhecimento e aí você deve considerar o renascimento e reinvenção. Algumas (marcas) tem dificuldades para fazer tal movimento”.

No geral o que leva uma marca à reinvenção é a perda de seu público alvo, seja porque este amadureceu (envelheceu) – e a nova geração mais jovem não se identifica com os valores da marca -, mudou, ou até mesmo desapareceu. Outro motivo pode ser a extrema competitividade no setor.

Na matéria, a jornalista Lisa Lockwood ainda dá exemplo de reinvenções bem sucedidas, como a da Dior com Galliano, Diane Von Furstenberg, Puma, Lacoste, Guess e ouras nem tanto. Também aponta marcas que precisam desesperadamente se reinventar, como é o caso da GAP.

E por aqui as tais reinvenções estão começando a ganhar mais notoriedade. A Zoomp é o exemplo mais recente, seguido pela Zappign que agora recebe direção critaiva de Maurício Iannes. A Ellus 2nd Floor também é uma marca que ganhou nova cara, sob o comando de Rita Wainer assim como muitas outras.

Veja Inútil

28 out

OLIVEROS DIZ: O premiado documentário “Inútil” (2007), teve apenas 3 sessões dentro da Retrospectiva do cineasta chinês Jia Zhang-Ke, na Mostra Internacional de Cinema. Ele revela 3 retratos de pessoas que fazem roupas e de pessoas que as consome. Um deles é sobre a estilista chinesa Ma Ke e o lançamento de sua marca em Paris. No começo do ano, a Carol Vasone do UOL foi ver este lançamento e escreveu um texto que vale a pena ler.

Meninas adultas

27 out

GLAUCO DIZ: No começo do mês, entre os dias 3 e 5,  rolou a 6a  edição do Teen Fashion, evento de moda voltada ao público jovem. Sei que já faz um tempinho, mas até hoje ficou na minha cabeça um assunto que surgiu de uma observação da Laura Artigas, do Moda pra Ler, lá nos corredores da Cinemateca Brasileira: as meninas estão usando cada vez menos roupa e mais maquiagem. 

Parece papo de senhorinha conservadora, mas ficamos impressionados ao observar a quantidade de mini-saias (minis meeeesmo!), tops, saltões e maquiagem em garotas que não tinham mais do que 13 anos. Até concordo quando dizem que, nessa fase, o adolescente é super ligado na estética, queira chamar atenção, imitar seus colegas e seus artistas favoritos. Afinal, para eles (assim como para nós) é muito importante ser aceito no grupo.

Mas, fico me perguntando onde é que esse pessoal vem buscando suas referências? A sensação que eu tenho é que para essas meninas o importante é se parecer com a Beyoncé, dançar como Shakira e se vestir como a Christina Aguilera (com bastante umbigo à mostra). E a grande preocupação delas é saber quando os pais lhes darão autorização para fazer uma tatuagem, colocar um piercing ou, quem sabe, implantes de silicone. Radical? Pode ser. Mas, vocês hão de concordar, que essa não é uma afirmação falsa.

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Isso me faz lembrar de uma história que aconteceu nos tempos do colégio. Não sei direito se foi na 7ª ou 8ª série… Enfim, a diretora convocou uma reunião com pais e alunos para discutir a roupa da “molecada”. Ela defendia que aquilo ali era um colégio e não uma passarela; que as meninas pareciam competir para quem se atrevia mais no modelito; que abusavam das camisetas cortadas para deixar a barriga à mostra; e que os meninos brigavam pra ver quem ia usar a calça mais larga para deixar a cueca aparecendo. De nada adiantou. Quando ela sugeriu a adoção de uniformes, poucos pais aderiram à idéia (o que é compreensível, pois se tratava de um colégio público). E tudo continuou como era.

Isso só pra mostrar que, se naquela época, isso já era uma questão, imagina nos dias de hoje? Desde cedo essas meninas vão acreditando na idéia de que o sexy beirando ao vulgar que é o bonito. Daí talvez uma possível explicação, de outras inúmeras, da tão comentada falta de elegância ou, melhor, do excessivo apelo sexual na composição do visual da mulher brasileira (não estou generalizando, tá?). Uniforme já nessas garotas!

TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA?

26 out

VITOR DIZ:

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Jodhpurs para meninos

22 out

emporio-armani-jodhpur.jpgLUIGI DIZ: Hoje (22/10) a Fernanda Resende, do Oficina de Estilo, me perguntou se as calças jodhpur – hit deste inverno no hemisfério norte, desfiladas na coleção de inverno da Balenciaga – também servem para os meninos. Confesso que a pergunta me pegou de surpresa. Não me lembrava de ter visto nenhum homem usando tais calças recentemente, nem nenhum desfile em que elas aparecessem.

Antes de continuar vale lembrar que os jodhpurs são de origem oriental e foram usados originalmente para equitação, como ainda são, sendo uma peça originalmente masculina. O uso deste tipo de calça é bem recorrente na moda urbana e já conta com várias interpretações de diversos estilistas, tanto nacionais, como internacionais.

Isto posto, volto a pergunta que me foi feita que ficou na minha cabeça durante toda a tarde. Então resolvi ir pesquisar nos desfile masculinos para o verão 2008 se as tão faladas jodhphurs apareciam em alguma coleção. Para minha surpresa apareceram. E para ser bem sincero, onde eu menos esperava. De cara fui procurar nos desfiles de Gaultier, Galliano, Comme des Garçons, Junya Watanabe e outros estilista tidos como mais vanguardistas e menos convencionais. Porém nesses só achei calças sarouels ou dhotis (aquelas mais larginhas na coxa e ajustadas do joelho para baixo).

As jodphurs, as que eu realmente procurava só fui achar realmente na coleção da Emporio Armani, que por sinal estava cheias delas, em looks bem hi-low, combinadas e até construídas com tecidos e peças de alfaiataria. Isto acabou contribuindo para tirar o ar eqüestre excessivo que as calças podem carregar e também ajudou para dar visual mais moderno para a peça.

Então respondendo a pergunta, agora com mais embasamento: jodhpurs rolam para os meninos também.

Diana Vreeland: a mãe de todas as diabas

22 out

OLIVEROS DIZ: Por ocasião do aniversário de 150 anos da Harper’s Bazaar, resolvi falar um pouco de Diana Vreeland, com certeza a mais importante editora de moda da história, simplesmente porque ela inventou esta profissão.

Reza a lenda, que Carmen Snow a viu dançando no Roof de NY com seu marido, o banqueiro Thomas Vreeland, com um vestido Chanel e teve a intuição que aquela mulher de sociedade, cheia de estilo, poderia ser uma ótima colaboradora para a Bazaar.

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Carmen Snow e Diana Vreeland discutindo lay outs da HB (Walters Sanders/Time&Life)

E estava 1000% certa. Em 1936 ela começou a escrever a coluna Why Don’t You…? (Por que você não…?) onde ela dava dicas absurdas como: Porque você não lava seus cabelos claros do seu filho com o campanhe que sobrou de ontem a noite¿ Ou Porque você não usa 3 diamantes presos no cabelo como a Duquesa de Windsor?

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1934: primeira coluna Why don’t you…? de Diana Vreeland

Em 1939 se tornou a primeira editora de moda do mundo. Seu estilo extravagante foi sua marca até o fim da vida. Costumava afirmar: “Sei o que elas vão usar, antes de elas usarem. O que vão comer, antes de comerem. E até mesmo para onde vão, antes mesmo de o lugar existir.”

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Diana Vreeland em ação num editorial de 1941

Como toda editora de moda (do passado?) ela não era fácil: uma de suas manias era de que suas assistentes mais próximas usassem bijuterias barulhentas e enormes, com guizos, para que ela sempre soubesse quando estavam por perto. Odiava reuniões pois achava que elas eram inúteis. Dava ordens por meio de telefones e memorandos ditados às assistentes. A revista Visonaire 37 publicou uma edição especial com 150 memorando, da época que foi editora-chefe da Vogue.

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Aliás, se na Bazaar ele teve seu talento reconhecido, por onde ficou por 25 anos, foi na Vogue que ela se transformou num ícone fashion. Tudo começou em 1962, quando o empresário Sam Newhouse comprou a editora Condé Nast e deu a Vogue de presente para a mulher, que exigiu a contratação de Diana para o cargo de diretora.

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Ganhava um salário altíssimo, tinha um motorista para busca-la todos os dias e um crédito ilimitado para comprar as roupas que quisesse. Era realmente era uma mulher de estilo. Feia que só ela –dizem que passou mal bocados na infância e adolescência porque sua mãe e irmã judiavam dela por causa da feiúra – resolveu seu complexo quando casou com Thomas, o homem mais lindo que ela conhecera, segundo suas próprias palavras.

O que se espera da figura de uma editora de moda? Antes de mais nada, estilo. Ela criou um estilo só dela. Cabelo preto sempre no mesmo corte, preso atrás das orelhas, batons e esmaltes vermelhíssimos, da mesma cor de seu apartamento e escritório na Vogue, e sempre impecavelmente vestida.

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Vermelho era a cor-paixão de Vreeland no seu ape decorado por Billy Baldwin

Segundo, que tenha um faro para o novo e Diana possuía um dom para descobrir talentos e foi responsável pelo sucesso de muitas modelos e dezenas de fotógrafos e estilistas. Twiggy, Marisa Berenson, Verushka e Lauren Hutton foram algumas de suas modelos imortalizadas em seus editoriais. Sabia reconhecer beleza de mulheres consideradas “esquisitas” como Barbra Streisand e Anjelica Huston. Seu círculo de amizade era composto de pessoas como Rudolf Nureyev, Coco Chanel, Jackie Kennedy, Andy Warhol.

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D.V. em click de Andy Warhol

Antes de Diabo Veste Prada, Vreeland (dizem) foi a inspiração de uma editora de moda exigente e perfeccionista no filme francês dos anos 60, “Qui êtes-vous Polly Magoo?”. O filme é de Willian Klein, fotógrafo contratado pela Vogue na época.

Vreeland soube tirar partido de seu networking. Em 1971 sua saída da Vogue foi humilhante. Todo mundo já sabia de sua saída e comentavam por suas costas. O motivo foi que ela estourava o orçamento da revista, já que tinha equipes fotografando pelo mundo todo.

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Caricatura de D.V. por David Levine

Ela deu a volta por cima no ano seguinte, graças a sua amizade com Jackie O., tornou-se consultora especial do Instituto de Vestuário do Metropolitan Museus de Nova York. De1972 até 1989, criou memoráveis exposições como a “The World of Balenciaga” (1973), “Hollywood Design” (1974), “The Glory of Russian Costume” (1976), e “Vanity Fair” (1977).

Em 1989, chegou ao fim da vida de maneira trágica. Pobre e cega na cama, recebia a visita diária do amigo André Leon Talley (editor-adjunto da Vogue América), que lia e lhe contava as novidades da cidade. Sobre a cegueira, corre a lenda de que teria comentado, sarcasticamente: “Meus olhos se cansaram de ver coisas bonitas.”

Em 1994, cinco anos após a sua morte, Diana Vreeland foi homenageada com uma exposição no mesmo museu Metropolitan em que trabalhou. Em 1996, foi a personagem principal de uma peça de teatro denominada Full Gallop, de Mark Hempton e Mary Louise Wilson, expressão com que ela respondia quando lhe perguntavam como estava – a todo vapor, dizia, mesmo em tempos mais adversos.

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Cena de Full Galop com Kate Udall no papel de Vreeland em motagem de 2005

Para a nova geração vai fazer mais sentido o projeto da produtora Nina Santisi, a mesma de Unzipped (1995) sobre o estilista Isaac Mizrahi. A atriz mais cotada para o papel é Siena Miller, que vive no cinema “Factory Girl”, por coincidência conta a vida de Edie Sedgwick, que era protegida de Diana Vreeland. Para Guto Barra, da Planet Pop, quem deveria fazer o papel é Adrien Brody, que de peruca ficaria igualzinho a D.V.

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Quem deveria fazer D.V. no cinema: Sienna ou Brody?

Anyway, no filme poderemos reviver as frases impagáveis da mãe de todas as diabas:

“Dinheiro ajuda a tomar café na cama. Estilo ajuda a descer uma escada”
“O biquíni foi a invenção mais importante do século 20, depois da bomba atômica”
“Se você não se veste bem todos os dias de sua vida, jamais estará bem vestida no sábado à noite”
“A roupa não leva a lugar nenhum. É a vida que você vive nela que leva”
“A modelo ideal não tem que ser perfeita, nem bela, mas sim impregnar de alma as roupas”


Vale a pena ver Vreeland em ação gritando: “Please don’t stand there!”