Moda pra ler entrevista: Marilia Carneiro

20 out


mariliacarneiro.jpg

LAURA DIZ: A figurinista da Rede Globo Marília Carneiro assina o figurino da peça “O Baile”, em cartaz até o dia 25 de novembro no teatro Cultura Artística em São Paulo. No espetáculo ela retomou o trabalho para o teatro e a parceira com o diretor José Possi neto, colocando em prática seu vasto conhecimento em figurino de época.

Carioca e moradora da Gávea, Marília começou sua carreira como figurinista em 1973, com o filme “O homem que comprou o mundo” de Eduardo Coutinho (mais conhecido hoje pelo documentário “Edifício Máster”). “Comecei como Herchcovitch, vestindo um travesti nesse filme. Me inspirei no Coccinelle o primeiro travesti que vi na vida. Foi em Paris”, diverte-se. Logo em seguida entrou na Rede Globo a convite da atriz Dina Sfat, amiga e cliente da boutique que Marília teve nos anos 60, a Truc.

A carreira de figurinista teatral começou algum tempo depois em 1979 com “Rasga Coração”, de Oduvaldo Viana Filho. “Foi uma peça importante porque esteve proibida durante a ditadura”, relembra. Ela calcula que tenha feito cerca de 27 trabalhos para o teatro, entre os quais também destaca “Doce Deleite”, e “M. Butterfly”, essa última com o diretor de “O Baile”.

Conhecida por lançar hits de moda como a meia de lurex usada com sandália em “Dancing Days”, ou a mini-saia jeans da Darlene, em “Celebridade”, a figurinisra também prima por compor belíssimos trajes de época, como das mini-séries “Anos Rebeldes” e “A Casa das Sete Mulheres”.

“O Baile” foi inspirado no filme homônimo de 1983 dirigido pelo italiano Ettore Scola, que por sua vez foi baseado numa criação do diretor francês Jean-Claude Penchenat, do Théâtre du Campagnol. O espetáculo mostra por meio dos bailes a passagem do tempo, dos anos 50 até os dias de hoje. A música, a dança, e claro, as roupas são as personagens principais.

Por telefone, divertida e falante, Marília contou com pitadas de autobiografia como foi desenvolver os 150 looks que os 20 atores usam.

baile1.jpg
Figurino do baile dos anos 50

Como surgiu o convite para fazer “O Baile”?
A Tássia Camargo (atriz e produtora do espetáculo) me convidou e o Possi (José Possi Neto, o diretor),adorou a proposta. Eu e ele trabalhamos juntos em M.Butterfly e em um show da Zizi Possi.

Em quanto tempo o figurino ficou pronto?
Foram 3 meses. A produção alugou uma casa na Barra da Tijuca. Vivemos em comunidade. Foi uma integração muito grande que facilitou o trabalho porque entendi o corpo e a necessidade de cada ator. Fiquei um pouco nostálgica porque lembrei de uma época que pude acompanhar o Teatro de Soleil. Uma amiga integrava o grupo. Apesar de todos os anos de experiência nunca tinha trabalhado dessa maneira.

Foi uma diversão então?
Foi uma delícia! Eu tenho a idade do Baile (risos). Busquei inspiração na minha memória afetiva e nos figurinos que criei. A ajuda do Possi foi de grande valia. Ele é muito detalhista e lembrava de coisas muito específicas, como um vestido que a Celi Campelo usou ou a roupa que a Elis Regina casou, e eu corria atrás.

Você disse que buscou inspiração na sua memória afetiva. O que fazer esse figurino te recordou?
Tanta coisa… Tinha uma empregada que chorou muito quando o Getúlio morreu. Lembro de ter virado getulista na época. Minha família era super conservadora e achou aquilo um horror. Nos anos 80 foi uma auto-referência das roupas que usava… e por aí vai.

baile_foto1.jpg

Além da sua memória afetiva onde mais você pesquisou?
O filme sobre o festival de Woodstock me ajudou muito. Também busquei no acervo de revistas da minha irmã, que era modelo. Busquei também os ídolos de cada época porque sintetizam bem o figurino.

E o filme do Ettore Scola? Foi fonte de inspiração?
Foram dois momentos com o filme. Perdi a conta de quantas vezes assisti. Deixava o DVD passando o tempo todo para me acostumar com as imagens. Depois não podia mais ver o filme e passei a buscar as referências brasileiras.

Define em uma peça ou uma palavra o figurino de cada época em “O baile”?
50´s – anágua; 60 – Courréges; 70 – Cores e barriga de fora; 80 – exagero; 90 até hoje – na peça não tem algo representativo, foram minha pirações.

Há alguma peça que faça referência explícita a algum ídolo da época?
Várias, mas cito dois casacos do baile da década de 70. Um modelo peludo que o Mick Jagger vestia aparece no Carlinhos de Jesus e o outro que o Caetano Veloso usava coloquei no José Paulo Correa.

cae.jpg

Onde você encontrou as roupas?
A maior parte aqui em São Paulo no brechó “Minha Avó Tinha”. E o que não encontrei o dono (Franz Ambrósio), gentilíssimo, me indicou onde achar. Fui também ao Spazio Vintage na Vila Madalena. Acabou acontecendo uma coisa muito interessante também.

O que? O que? (!!!)
Descobri na garagem do (ator) Guilherme Fontes um contêiner com todos os figurinos do filme “Chatô” (que não foi concluído). Adoro o Guilherme e ele me atendeu de prontidão. Contudo, além das roupas estarem guardadas há 7 anos, o espaço havia passado por um incêndio. Na hora que abrimos foi um susto. As peças estavam danificadas. Um tintureiro cobrou uma fortuna para recuperar as roupas. Eu chorei, chorei, chorei e ele deu um desconto inacreditável. No fim foi uma homenagem ao Guilherme, que ficou muito emocionado quando viu a peça.

Os atores dançam o tempo todo, como deixá-los confortável?
Quanto às roupas não tive problema algum. Tive que repensar alguns sapatos. Não pude colocar saltos ou plataformas muito altas.

Você gosta de fazer figurino para teatro?
Quando dá certo adoro! No primeiro figurino teatral que fiz fui indicada ao prêmio Moliére.

Por que quando dá certo?
È, porque não é fácil. Primeiro porque os ensaios, em geral, são à noite e sou uma pessoa diurna (risos). Outro grande problema é a verba, em geral restrita.

”O Baile” deu certo?”
Claro. Gostei muito. As roupas são um dos pilares da peça. Às vezes penso que
o figurino poderia ter ficado mais rico, porém, estamos no Brasil. A realidade é outra. É a anti-brodway (risos).

Estudamos a história da moda com base nas tendências surgidas no exterior, principalmente na Europa. No caso do figurino do “O Baile”, tem alguma referência que você apontaria como genuinamente brasileira?
Acabei usando as referências mais emblemáticas mesmo, que vieram de fora. Porém, de maneira geral, sempre adaptamos a moda para nossa realidade. Quando a Brigite Bardot era o ícone até poderíamos imitá-la, mas ninguém era tão esguia e loira como ela, né? (risos). O que é genuinamente brasileiro é a moda praia.

Você está fazendo o figurino da próxima novela das seis, do Walter Negrão, e sua fama se fez nas novelas das 8. Já tinha feito algum trabalho para a dramaturgia nesse horário?
Fiz “Mulheres de Areia”.

O que muda?
Será uma novela de época, passada nos anos 30. Eu procurei fazer algo leve, como pede o horário. E, além disso, acho que o mundo está precisando de leveza.

Conta um pouco como foi o trabalho?
Não quis um figurino muito fiel a época. Desconstruí os anos 30. O público prefere ver um toque de atualidade.

Anúncios

2 Respostas to “Moda pra ler entrevista: Marilia Carneiro”

  1. Oficina de Estilo 21 de outubro de 2007 às 10:28 pm #

    adorei a entrevista. ela é tudo, uma aula-fofa a reposta das peças que representam cada época. =)

  2. Ana 26 de outubro de 2007 às 11:50 am #

    Sou super fã da Maríla Carneiro. Meu sonho é um dia trabalhar para ela!
    Apesar de morar no Rio vou tentar ir para SP só para ver de perto as suas criações para a peça “O Baile”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: