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Veja Inútil

28 out

OLIVEROS DIZ: O premiado documentário “Inútil” (2007), teve apenas 3 sessões dentro da Retrospectiva do cineasta chinês Jia Zhang-Ke, na Mostra Internacional de Cinema. Ele revela 3 retratos de pessoas que fazem roupas e de pessoas que as consome. Um deles é sobre a estilista chinesa Ma Ke e o lançamento de sua marca em Paris. No começo do ano, a Carol Vasone do UOL foi ver este lançamento e escreveu um texto que vale a pena ler.

Diana Vreeland: a mãe de todas as diabas

22 out

OLIVEROS DIZ: Por ocasião do aniversário de 150 anos da Harper’s Bazaar, resolvi falar um pouco de Diana Vreeland, com certeza a mais importante editora de moda da história, simplesmente porque ela inventou esta profissão.

Reza a lenda, que Carmen Snow a viu dançando no Roof de NY com seu marido, o banqueiro Thomas Vreeland, com um vestido Chanel e teve a intuição que aquela mulher de sociedade, cheia de estilo, poderia ser uma ótima colaboradora para a Bazaar.

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Carmen Snow e Diana Vreeland discutindo lay outs da HB (Walters Sanders/Time&Life)

E estava 1000% certa. Em 1936 ela começou a escrever a coluna Why Don’t You…? (Por que você não…?) onde ela dava dicas absurdas como: Porque você não lava seus cabelos claros do seu filho com o campanhe que sobrou de ontem a noite¿ Ou Porque você não usa 3 diamantes presos no cabelo como a Duquesa de Windsor?

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1934: primeira coluna Why don’t you…? de Diana Vreeland

Em 1939 se tornou a primeira editora de moda do mundo. Seu estilo extravagante foi sua marca até o fim da vida. Costumava afirmar: “Sei o que elas vão usar, antes de elas usarem. O que vão comer, antes de comerem. E até mesmo para onde vão, antes mesmo de o lugar existir.”

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Diana Vreeland em ação num editorial de 1941

Como toda editora de moda (do passado?) ela não era fácil: uma de suas manias era de que suas assistentes mais próximas usassem bijuterias barulhentas e enormes, com guizos, para que ela sempre soubesse quando estavam por perto. Odiava reuniões pois achava que elas eram inúteis. Dava ordens por meio de telefones e memorandos ditados às assistentes. A revista Visonaire 37 publicou uma edição especial com 150 memorando, da época que foi editora-chefe da Vogue.

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Aliás, se na Bazaar ele teve seu talento reconhecido, por onde ficou por 25 anos, foi na Vogue que ela se transformou num ícone fashion. Tudo começou em 1962, quando o empresário Sam Newhouse comprou a editora Condé Nast e deu a Vogue de presente para a mulher, que exigiu a contratação de Diana para o cargo de diretora.

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Ganhava um salário altíssimo, tinha um motorista para busca-la todos os dias e um crédito ilimitado para comprar as roupas que quisesse. Era realmente era uma mulher de estilo. Feia que só ela –dizem que passou mal bocados na infância e adolescência porque sua mãe e irmã judiavam dela por causa da feiúra – resolveu seu complexo quando casou com Thomas, o homem mais lindo que ela conhecera, segundo suas próprias palavras.

O que se espera da figura de uma editora de moda? Antes de mais nada, estilo. Ela criou um estilo só dela. Cabelo preto sempre no mesmo corte, preso atrás das orelhas, batons e esmaltes vermelhíssimos, da mesma cor de seu apartamento e escritório na Vogue, e sempre impecavelmente vestida.

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Vermelho era a cor-paixão de Vreeland no seu ape decorado por Billy Baldwin

Segundo, que tenha um faro para o novo e Diana possuía um dom para descobrir talentos e foi responsável pelo sucesso de muitas modelos e dezenas de fotógrafos e estilistas. Twiggy, Marisa Berenson, Verushka e Lauren Hutton foram algumas de suas modelos imortalizadas em seus editoriais. Sabia reconhecer beleza de mulheres consideradas “esquisitas” como Barbra Streisand e Anjelica Huston. Seu círculo de amizade era composto de pessoas como Rudolf Nureyev, Coco Chanel, Jackie Kennedy, Andy Warhol.

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D.V. em click de Andy Warhol

Antes de Diabo Veste Prada, Vreeland (dizem) foi a inspiração de uma editora de moda exigente e perfeccionista no filme francês dos anos 60, “Qui êtes-vous Polly Magoo?”. O filme é de Willian Klein, fotógrafo contratado pela Vogue na época.

Vreeland soube tirar partido de seu networking. Em 1971 sua saída da Vogue foi humilhante. Todo mundo já sabia de sua saída e comentavam por suas costas. O motivo foi que ela estourava o orçamento da revista, já que tinha equipes fotografando pelo mundo todo.

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Caricatura de D.V. por David Levine

Ela deu a volta por cima no ano seguinte, graças a sua amizade com Jackie O., tornou-se consultora especial do Instituto de Vestuário do Metropolitan Museus de Nova York. De1972 até 1989, criou memoráveis exposições como a “The World of Balenciaga” (1973), “Hollywood Design” (1974), “The Glory of Russian Costume” (1976), e “Vanity Fair” (1977).

Em 1989, chegou ao fim da vida de maneira trágica. Pobre e cega na cama, recebia a visita diária do amigo André Leon Talley (editor-adjunto da Vogue América), que lia e lhe contava as novidades da cidade. Sobre a cegueira, corre a lenda de que teria comentado, sarcasticamente: “Meus olhos se cansaram de ver coisas bonitas.”

Em 1994, cinco anos após a sua morte, Diana Vreeland foi homenageada com uma exposição no mesmo museu Metropolitan em que trabalhou. Em 1996, foi a personagem principal de uma peça de teatro denominada Full Gallop, de Mark Hempton e Mary Louise Wilson, expressão com que ela respondia quando lhe perguntavam como estava – a todo vapor, dizia, mesmo em tempos mais adversos.

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Cena de Full Galop com Kate Udall no papel de Vreeland em motagem de 2005

Para a nova geração vai fazer mais sentido o projeto da produtora Nina Santisi, a mesma de Unzipped (1995) sobre o estilista Isaac Mizrahi. A atriz mais cotada para o papel é Siena Miller, que vive no cinema “Factory Girl”, por coincidência conta a vida de Edie Sedgwick, que era protegida de Diana Vreeland. Para Guto Barra, da Planet Pop, quem deveria fazer o papel é Adrien Brody, que de peruca ficaria igualzinho a D.V.

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Quem deveria fazer D.V. no cinema: Sienna ou Brody?

Anyway, no filme poderemos reviver as frases impagáveis da mãe de todas as diabas:

“Dinheiro ajuda a tomar café na cama. Estilo ajuda a descer uma escada”
“O biquíni foi a invenção mais importante do século 20, depois da bomba atômica”
“Se você não se veste bem todos os dias de sua vida, jamais estará bem vestida no sábado à noite”
“A roupa não leva a lugar nenhum. É a vida que você vive nela que leva”
“A modelo ideal não tem que ser perfeita, nem bela, mas sim impregnar de alma as roupas”


Vale a pena ver Vreeland em ação gritando: “Please don’t stand there!”

Os microgrupos definem moda?

14 out

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Spencer Tunick, Santa Maria da Feira (Portugal), 2003

OLIVEROS DIZ: Esta semana no Tendências Contemporâneas falamos mais uma vez da morte das tendências na moda ou como postou a Oficina de Estilo o que temos são micro e mini tendências.

Eu fiquei pensando que uma das boas coisas que a revolução tecnológica trouxe a tona foi a capacidade do maior número de pessoas se comunicarem e deixarem seus papéis passivos de receptores de informação para se tornarem agentes da comunicação.

O números de redes virtuais, comunidades, blogs, começam a surtir efeitos no mercado, incluso o da moda. Vivemos mais do que nunca cercados de telas móveis: televisão, computadores, laptops e mais do que nunca, os celulares deixam de ser apenas aparelhos transmissores do padrão oral, para ser também um difusor de imagens e palavras.

O Brasil é um fenômeno de comunicação. Nosso país é o segundo nos rankings de uso de ferramentas como fotologs, orkut e blogs, apesar de todas as diferenças sociais que enfrentamos.

O mercado que sempre é muito “sensível” as mudanças de comportamento vêm há anos desenvolvendo recursos para chegar ao seu consumidor final. Marketing direto, personalização, interatividade são as palavras chaves que respondem a este processo de fragmentação social cada vez mais evidente.

Do momento que acordamos até o momento que vamos dormir, aceitamos e assumimos os mais diferentes papéis sociais. Um exemplo vago: a secretária executiva que usa tailler de dia, pode freqüentar a academia com seus leggings e shorts de lycra vibrante e ser a gatinha de microshorts e sandália alta na boate.

Os comportamentos sociais ainda tem certas regrinhas básicas, mas cada vez mais são flexíveis, dependendo do grau de socialização que você tem. Ou seja, quanto mais você freqüenta diferentes atividades sócio-culturais, mais flexibilidade na hora de se vestir e opções você terá ao seu dispor. É o que a Antropologia Cultural chama de “forma lúdica da socialização”.

As tribos de ontem, os microgrupos de hoje têm características como a flexibilidade, a mobilidade, a experiência compartilhada, o lado emocional, o sentimento de coletivo, que você revive dentro de cada grupo que você escolhe para conviver. E o melhor, sem ter que ser fiel a nenhum deles.

Já reparou na quantidade de grupos específicos existem no espaço virtual… É isso, cadavez mais o mercado da moda terá opções diversificadas para você, tipo “mulher-de-trinta-com-cara-de-vinte-e-poucos-anos-independente-sensível-urbana-que-curte-nadar-dançar-e-ficar-em-casa-de-vez-em-quando-comendo-brigadeiro-de-colher.

Duvida? Já viu a lista de “tendências” publicada pelo Alcino Leite na sua coluna “Última Moda”? Tem para todos os gostos, ocasiões e possibilidades que você procura. E isso não quer dizer, que se você decidir, em 2008, usar bolsas grandes, jeans e camiseta, estará fora de moda. É só encontrar seu grupo: eu-amo-bolsas-grandes-jeans-e-camiseta, entendeu?

TENDÊNCIAS PRIMAVERA-VERÃO 2008

Conheça algumas das principais propostas que apareceram nos desfiles das semanas de moda de Nova York, Milão e Paris Calças
Principalmente as pantalonas largonas, de bocas gigantes. A opção são os modelos justíssimos

Lingerie e pijamas
O underwear se insinuou muito nas coleções, assumindo versões chiques ou formas provocadoras

Sandálias
Baixas, tipo hippie e franciscano, ou altas, estilo gladiador, bem coloridas

Cores
Fortes, como o laranja e variações de violeta, rosa e azul; o preto como contraponto

Estampas
À vontade, mas principalmente com motivos florais e étnicos

Formas
Saias e vestidos curtos ou bem longos, evasês, fartos de tecidos e dobras -tudo confortável e vaporoso

Imagens
Foi a estação do romantismo, do superfeminino, do estilo descontraído e marcante

Transparências e franjas
Para dar leveza à silhueta e criar sutilezas e sensação de liberdade

Masculino
Tanto para detalhes (como um colete) quanto para looks totais (como a forma-smoking); ombros impositivos

Bolsas
Tamanhos médios ou pequenos. A novidade foi a bolsinha presa no calcanhar, da Chanel

Meme: 5 livros do Fora de Moda

7 out

OLIVEROS DIZ: A Biti Averbach, a up-to-dater da blogolândia, fez um convite irrestível para participar de um meme literário.

Já no mundo nerd da blogosfera, um meme é uma espécie de corrente transmitida de blog em blog, conforme as pessoas respondem a um tema proposto e o repassam adiante“, explica Biti no seu post. Ainda bem, porque eu não sabia.

Achei a idéia genial, e resolvi estender o convite para os BlogViewers: Luigi Torres, Laura Artigas, Glauco Sabino, Olivia Hanssen, Fernanda e Cris. O Vitor Angelo deve publicar a sua lista no blog dele, porque foi convidado pela Biti, mas ele poderia fazê-lo aqui também!!!

Então, esta semana vamos postar nossas listas???

Listas são meu terror e de muita gente. E definir os critérios, então???

Meu pai sempre leu muito, e era uma imagem que tenho desde a infância, ele sempre com um livro nas mãos. Lia qualquer coisa. Fui um leitor precoce e quando era adolescente, fui muito pedante, claro. Li os clássicos da literatura numa vasta coleção que Abril Cultural lançou na década de 70. O Vitor Angelo tem esta coleção até hoje. Eu era rato de biblioteca. Fiz várias faculdades e só me formei em Arquitetura, onde tenho até Mestrado, li muito.

Depois de muito pensar, resolvi publicar uma lista de livros que de alguma forma me ajudaram a compreender melhor o mundo e as várias carreiras que segui pela vida…

Arquitetura:

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Italo Calvino

1. CIDADES INVISÍVEIS de Italo Calvino. O autor italiano narra um diálogo fictício entre Marco Polo e Kublai Khan. O navegador conta para o conquistador suas viagens pelo mundo, descrevendo cidades com nome de mulheres. Nestas narrativas reconhecemos pedaços de várias cidades que conhecemos.

Na época da faculdade de Arquitetura, sempre me interessei + pelo urbanismo do que por projeto, tanto que trabalhei anos com meio ambiente nas prefeituras de Santo André e Santos. Este livro me trouxe uma noção poética sobre a cidade, que nenhum livro de arquitetura conseguiu. Trabalhar em prefeitura significava fazer muitos projetos que levam muito tempo para que aconteçam. O que eu fiz, na verdade, foi projetar cidades invisíveis…

Arte:

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Leonilson por  Pablo di Giulio

2. LEONILSON: SÃO TANTAS AS VERDADES, de Lisette Lagnado. Quem me conhece um pouco, sabe da minha paixão pela obra do Leonilson. Na década de 80 comecei a me interessar por artes, frequentava galerias simplesmente por prazer. Quando me deparei com uma obra dele na Luisa Strina, fiquei tão emocionado, me falava tão direto…Foi a primeira vez que eu realmente tinha visto algo em artes que me dava esta emoção.

A Lisette, que se tornou amiga anos mais tarde, é uma testemunha próxima e afetiva do artista. Com este livro pude me aprofundar e conhecer mais sobre um dos meus artistas preferidos.

Dança

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Isadora Duncan 

3. MINHA VIDA de Isadora Duncan. Eu desde pequeno gostava de dançar. Morria de vergonha e dançava escondido no quarto, no banheiro…adorava dançar por entres cortinas, sempre sozinho. Um dia, uma grande amiga de Santos, Mariana Servulo da Cunha me deu de presente este livro e me levou para as aulas de Klauss Viana. Minha vida inteira mudou a partir daí. Um trecho do livro:

Dancei desde o momento em que aprendi a ficar de pé. Dancei toda a minha vida. O homem, a humanidade, o mundo inteiro precisa dançar. Assim já foi, e assim há de ser sempre. É de todo inútil haver gente que a isso se queira contrapor sem compreender que a dança é uma necessidade natural que nos foi dada pela natureza… Et voilá tout”

Eu continuo dançando até hoje.

Teatro

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Fernando Arrabal 

4. O ARQUITETO E O IMPERADOR DA ASSÍRIA do Fernando Arrabal. Eu fazia jornalismo em Santos e um dia fui para Campinas trabalhar com a Akiko Fujita, que fazia um trabalho monumental com cerâmica. Ela acreditava que um dia todo o mundo seria nômade, e precisaria de pousos para a jornada. Ela fazia “casas” de barro, que no final da feitura, tinha um ritual de queima durante três dias, até aquele barro com formas orgânicas se tornar uma cerâmica.

Lá conheci o pessoal do teatro e da dança da Unicamp. Era fora da época de vestibular, mas haviam vários cursos que você poderia se inscrever como aluno especial. Fiquei por lá um ano, participei como ator das peças produzidas pela primeira turma do curso, usando o nome artístico de Ricardo Lima, meu sobrenome do meio. Resolvi prestar o vestibular depois deste período.

Minha cena do teste de aptidão foi justamente o Arquiteto e o Imperador. Me lembro até hoje da cena. Era um galpão grande, com mezanino. Minha turma da Unicamp compareceu em peso para ver. Era o momento em que o Arquiteto (um selvícola) comia (literalmente) o Imperador (o personagem que sofria um naufrágio na ilha) em um banquete. Eu com uma caveira de verdade [que peguei com um amigo da Medicina] nas mãos, tomava um iogurte cremoso que saía de dentro dela. Uma alusão do líquido amniótico, que estava no texto e que seria a fonte de conhecimento humano. Neste momento o Arquiteto se transforma em Imperador. O galpão veio abaixo com a cena…

Final da história, passei no teste e zerei em química na segunda fase e não passei no vestibular. Depois prestei Arquitetura e me formei…

Moda

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Roland Barthes 

5. IMAGEM E MODA, Roland Barthes. Editora: Martins Fontes.

O livro “O sistema da moda”, de Roland Barthes, lançado pela Editora Nacional em 1979, está esgotado, mas a Martins Fontes lançou cinco volumes com textos do autor que estavam dispersos em revistas, jornais e outras publicações. O terceiro volume é Imagem e Moda.

Em O sistema da Moda, Barthes analisa a contribuição do discurso verbal para o sistema da moda, presente nos textos de revistas do gênero, e discute a motivação das pessoas para o consumo. O original foi escrito entre 1957 e 1963.

É o livro que acho fundamental para quem mexe com moda. Muita coisa mudou depois que o Barthes escreveu este livro, mas ainda assim, continua uma sendo uma análise que ajuda a entender as engrenagens do mundo fashion. Quando estava pensando na Viés, este foi o livro fundamental para a exposição. 

A imagem da moda vale mais do que a moda?

30 set

OLIVEROS DIZ: A cada semana de moda o que queremos saber é qual a imagem da temporada. Expressões surgem alucinadamente em busca de sínteses: FePower, Mulher Neoromantica, Guerreira Urbana, para definir quais as imagens que devemos consumir e atualizar nossos desejos.

Não quer dizer que saímos por aí comprando Prada e Marc Jacobs e sim como interpretamos e viabilizamos essas imagens. Por exemplo, quem não tem dinheiro para Balenciaga, usa um kadaieff e está tudo certo. Automaticamente você deu um up-grade no guarda-roupa.

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Comecei a pensar na relação entre imagem+moda e os textos e sub-textos que estão presentes neste binômio.

O texto hoje não é feito por palavras somente.Temos uma nova geração toda condenada porque aparentemente não lê. Acho que mudaram as formas de leitura e de texto e a imagem se tornou, de fato, um texto.

Christoph Wulf constrói uma crítica sobre esta questão. Ele faz uma revisão da história da imagem. Sua história começa quando as imagens ainda não haviam se tornado obras de arte, faziam parte imagens mágicas, imagens de culto, imagens sacras. Depois, explica que as imagens tornam-se representações de algo que não são. Representam algo, expressam algo, remetem a algo.

Sobre o momento atual, Wulf afirma: “Além de textos, pela primeira vez na História da humanidade também imagens são armazenadas e transmitidas para outras gerações, em um volume inimaginável. Fotos, filmes, vídeos tornam-se ajudas mnemônicas; surgem memórias imagéticas. Se textos até agora precisavam da complementação de imagens imaginadas, a imaginação hoje é limitada pela produção de “textos imagéticos” e sua transmissão. Cada vez menos pessoas são produtores, cada vez mais pessoas se tornam consumidoras de imagens pré-fabricadas que praticamente não desafiam a fantasia’.

Mais a frente, declara: “O caráter eletrônico de imagens televisivas possibilita ubiqüidade e aceleração. Tais imagens podem ser divulgadas com a velocidade da luz quase simultaneamente em todas as partes do mundo. Elas tornam o mundo uma miniatura e possibilitam a experiência específica do mundo como imagem. Representam uma nova forma da mercadoria e estão submetidas aos princípios econômicos do mercado. Elas mesmas são então produzidas e negociadas, quando os objetos a que se referem não se tornaram mercadorias”.

 

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Jenny Holzer e o texto de Beckett no Barbican em 2006

Na arte conceitual vários artistas se tornaram críticos da transformação da imagem em mercadoria. Jenny Holzer, por exemplo, escreve textos de filósofos e dramaturgos que são projetados em espaços públicos. Assim, seu texto se torna imagem e a sua obra vira discurso.

Utilizando outros artifícios, Michael Craig-Martin em “An Oak Tree” nos fala, entre outras coisas, na crença e no valor da percepção da arte. Ela foi apresentada no Brasil na exposição Splash!. A obra é um copo de vidro com água dentro, apoiado sobre um suporte de vidro preso numa parede. Ao lado lê-se um pequeno texto, que traz o seguinte diálogo:

Q: To begin with could you describe this work?

A: Yes, of course. What I’ve done is change a glass of water into a full-grown oak tree without altering the accidents of the glass of water.

Q: The accidents?

A: Yes. The colour, feel, weight, size.

Q: Haven’t you simply called this glass of water an oak tree?

A: Absolutely not. It is not a glass of water anymore. I have changed its actual substance. It would no longer be accurate to call it a glass of water. One could call it anything one wished but that would not alter the fact that is an oak tree…

Q: Do you consider that changing the glass of water into a oak tree constitutes an artwork?

A: Yes.

 

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An oak tree de Micheal Craig-Martin da coleção da Tate Modern

Assim, o artista revela que a crença na representação está no valor da arte, retomando a origem ancestral da imagem.

Uma linguagem que fez com que todos acreditassem no valor da imagem, além do cinema, é a moda. Falo desta relação em Moda como manifesto de arte

“A moda, assim como o cinema, não só faz parte da sociedade do espetáculo como também a alimenta. Atualmente, a moda nunca esteve tão em voga, tanto que virou lugar-comum afirmar que a moda está na moda. Nesse caso, não deve ser entendida como roupa, assim como o cinema não deve ser considerado, em sua essência, como filme, mas como um sistema que afirma seu tempo, que é capaz de responder às velozes mudanças num mundo midiático e tecnologizado, ansioso pela próxima novidade. Poucas são as linguagens, incluso literatura, fotografia, pintura, que podem afirmar e realizar essa façanha com tanta precisão”.

É claro, que não devemos abandonar a crítica sobre a quantidade de desejos de consumo que as imagens que a moda produz. Mas devemos avaliar que existe uma nova geração que aprendeu a ler e codificar imagens numa velocidade como em nenhum outro momento histórico.

Isso me lembra os ideogramas orientais. A palavra e a imagem não estavam dissociadas. Por exemplo , o kanji de “uma” (cavalo em japonês) antigamente era um desenho que lembrava a forma de um cavalo. Agora, nada mais é do que um ideograma de dez traços. Mas esse ideograma possui a significação “cavalo”. Faço uma associação entre internet e ideogramas: será que um dia não chegaremos a esta síntese entre palavra e imagem?

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Cavalo em japonês

Acho que antes da crítica ao mundo das imagens, deveríamos atentar mais sobre como elas são lidas. O cérebro humano tem uma capacidade ímpar de adaptação. As novas gerações, nascidas sob o signo da tecnologia, tem uma capacidade de lidar com um número de informações que seus críticos não foram adaptados. Vale a pena pensar nisso.

New look para as massas

23 set

OLIVEROS DIZ: A Semana de Moda de Londres acabou e não achei nada tão inspirador assim. De acordo com nossa “enviada especial”, Maria Prata , teve Christopher Kaine, os novos designers nas paralelas Blow, Fashion East e Fashion Fringe, a comemoração de 10 anos de Mathew Williamson, com direito a pocket show do Prince e o hype entorno da Louise Goldin e Giles Deacon.

Look de Christopher Kaine na Semana de Moda de Londres (foto: Marcio Madeira)

Tem esta corrente toda favorável às saias volumosas, cintura bem marcada e muito babados. Vão surgir penkas de definições: neo femimino, fe-power, sim, nós adoramos uma catalogação. Mas o que me chamou mais atenção em Londres, e é o que eu faria se estivesse lá, ir correndo para o Victoria & Albert Museum ver: The golden age of couture Paris and London 1947-1957.

O curioso é que esta mostra acaba por ser um bom contraponto para este trendy todo do saião. Depois do masculino+feminino que teve Saint-Laurent como referência, chegou a hora de Dior, que já havia sido anunciado em grande estilo, pelo próprio Galliano no desfile de couture da grife

O recorte da curadora Claire Wilcox, que levou três anos para fazer a mostra, parte da criação por Dior de seu New Look (1947) — que tivemos a chance de ver em Fashion Passion na Oca em 2004 — até a internacionalização deste estilo, com criadores importantes como Pierre Balmain, Hubert de Givenchy, Jacques Faith, Cristóbal Balenciaga.

New Look de Dior (1947)

O termo foi criado pela redatora da revista “Harper’s Bazaar” americana, Carmel Snow. “Que revolução, querido. Sua roupa lançou um ‘New Look“, disse a editora ao estilista. Ao contrário da moda prática de Chanel, o “New Look” era, basicamente, composto por saias amplas quase até os tornozelos, cinturas bem marcadas e ombros naturais. Era a volta da mulher feminina e elegante.

Além dos vestidos, pode-se ver também fotografias, cadernos de notas dos estilistas e croquis. O melhor de tudo, porém fica no hotsite da exposição. No melhor estilo Moda Moldes, você pode baixar os moldes em A4 e juntar as peças e fazer seu próprio New Look. Não é demais???

Parte do molde de saia New Look na linha “faça-você-mesma” 

A exposição termina com os modelos de John Galliano para a maison Dior, lugar que ele ocupa há 10 anos. O que a curadora não contava, é com este revival todo do saião , o que deixou muito mais atual sua mostra, que fica em cartaz até 06 de janeiro de 2008. Dá uma vontade…

Marc Jacobs: é feio mas tá na moda (very now)

16 set

OLIVEROS DIZ: Já sei, todo mundo já falou do desfile de Marc Jacobs. Todo mundo fashion já está em Londres. Mas só agora eu vi o desfile, li o que todo mundo escreveu e resolvi colocar algumas questões sobre a polêmica do desfile mais feio dos últimos tempos.

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Jacobs: combinação de cores + sunga aplicada = ugly (Don Ashby e Olivier Claisse/Style.com)

Na semana que passou, Maria Prata e Luigi Torres levantaram a lebre de como foi difícil entender (e gostar) da coleção desfilada no dia 10/09, véspera do aniversário do 11 de setembro, como muito bem lembrou Vitor Angelo, em 11 de setembro e Marc Jacobs. Suzy Menkes odiou o freak show, Cathy Horin e Alcino Leite acharam interssante o new sexy do estilista.

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A neo-feia darling da moda: Daiane Conterato no desfile de Jacobs (Marcio Madeira/Style.com)

Ou seja, estar no centro da discussão, no meio de 100 desfiles em NY, quer dizer estar no olho do furacão do mercado fashion. Como sabemos, se Milão dita tendências que vão ser copiadas depois e Paris concentra todos os desejos conscientes e inconscientes que o mundo vai querer depois, NY consegui ser a cara dos Estados Unidos: comprar, comprar, comprar. Talvez isso explique, o porquê de ser uma semana tão boring.

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Não é só de flores que vive o mundo da moda (Marcio Madeira/Style.com)

Sobre o desfile, sim é medonho, as roupas são horríveis. Porém, no meio do gostei-não-gostei, vamos tentar ir um pouco além. A grande dificuldade é encaixar este desfile naquilo que conhecemos. Não é a feiura a la Prada. Não é o deboche-lingerie de Gaultier, Westwood ou Galliano. Não tem a dramaticidade quase-quase bizarra de Viktor&Rolf.

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Feiúra a la Prada? (Marcio Madeira/Style.com)

O desfile de Jacobs está no limbo da catalogação-fashion. É feio, “mal-feito” e não faz bem para os olhos. Sabe a transparênica clean de Francisco Costa? O batido casaco Chanel? O bordel chic? Tudo está ali e não está. É como se tudo fosse visto com uma lente de aumento feita de vidro grosseiro.

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Tudo ao mesmo tempo: Chanel, Calvin Klein, Gaultier (Marcio Madeira/Style.com)

Marc Jacobs mostra um mundo feio, um mundo que a moda não quer ver. Vulgar. O desfile é de trás para frente, o que está embaixo vai para cima, o que era para ser bonito é o mais feio de tudo. Na sua crítica mordaz contra o mundo do red carpet, das celebridades vazias, da própria imagem na moda, Jacobs poderia ter dado um tiro no seu próprio pé. Mas não, sabe por quê?

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Victoria Beckham, Beyonce ou Britney? Quem vai encarar? (Marcio Madeira/Style.com)

A busca desenfreada pelo belo, o escapismo tão vigente dos últimos anos, são redomas protetoras contra um mundo que é mais de 70% feio. Para cada coisa bela, há milhões de horrores. Nosso olhos foram adestrados para serem cada vez mais míopes, com camadas e camadas de efeito blur, bem photoshop. que encobrem e desfocam o real.

Não é todo dia que o mundo da moda se vê despida de todos os seus deliciosos artifícios. O desfile é indigesto? Muito. E ainda assim, muito significativo. Ele conseguiu a imagem mais atual da temporada. Veio do avesso do avesso do avesso em todos os sentidos.

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Quer apostar que a micro blusa ou a saia com fenda não vende? (Marcio Madeira/Style.com)

Vai vender? Vai. Todo mundo sabe que passarela é conceito que serve mais para vender bolsas e perfumes. Ele lançou o dele, Daisy (reparou como as flores aparecem no desfile?). As mulheres sempre querem uma bolsa dele. O resto vai bem editado para as lojas.

Consumidora final não lê crítica de desfile e para o bem ou para o mal, ele foi o talk of town da temporada de NY. Precisa mais?

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Quantas microbolsas com sapinho (símbolo de sorte) a freguesa vai levar? (Don Ashby e Olivier Claisse/Style.com)