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Black is beautiful

31 out

GLAUCO DIZ: Ontem fui ao dentista e resolvi folhear um NY Times que estava dando sopa por ali. Dei de cara com o suplemento de “moda e estilo”, que trazia uma interessante reportagem sobre a ausência de modelos negros nas passarelas. Segundo o jornal, dos 101 desfiles da temporada primavera-verão 2008 do NY Fashion Week, mostrados no site Style.com, mais de 30 não utilizaram um modelo negro sequer.  (Raras exceções foram Diane Von Furstenberg e a marca Heatherette, do duo Richie Rich e Traver Rains, que trouxeram mais de 5 negros para seus shows).

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Os três primeiros looks são de Diane Von Furstenberg; os três últimos, da Heatherette (Crédito: Style.com)

A reportagem segue contando o caso de um booker da agência Marilyn, que já recebeu solicitações de clientes com claras recomendações de “caucasians only” (apenas brancos), além de histórias de produtores de elenco. Esses afirmam que enviam as meninas para as seleções e, na maior parte das vezes, o que ouvem como resposta é que “ela é linda, mas infelizmente não é a certa para o trabalho”. Ainda, segundo os responsáveis por agenciar as moças, as negras só são escaladas quando o tema da coleção é de alguma forma relacionada à floresta, ao “jungle”.

Aqui no Brasil a história não é muito diferente. Uma rápida olhada nas fotos disponíveis por aí e a gente saca que a loirice é o que domina mesmo.  Tanto que o editor da revista Vanity Fair, Michael Roberts, se surpreendeu com o “exército de meninas brancas” nas passarelas do Fashion Rio. “O Brasil deveria aproveitar mais sua diversidade”. “É uma vergonha”, declarou à agência Reuters na época.

Aqui vale fazer uma ressalva. O estilista Marcelo Sommer utilizou um casting 100% negro nos desfiles do AfroReggae, no último SPFW. Tudo a ver com uma grife que é justamente inspirada na cultura negra.

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Desfile do AfroReggae (Crédito: Chic)

Camila Pitanga e Alexandre Herchcovitch também comentaram o assunto. Durante o SPFW, a atriz declarou que a falta de modelos negros no evento “espelha essa resistência, esse preconceito que infelizmente ainda está presente na nossa sociedade”. Já para o estilista, o problema é outro. “A oferta de modelos negros é menor”, disse à Reuters. “São as agências (de modelos) que têm que fazer um trabalho maior para recrutar mais negros, não acho que é culpa do estilista.”

Concordo com os dois. O preconceito racial está presente em todas as esferas da sociedade, nas mais diversas indústrias. Porque com a moda seria diferente? Mas, isso não significa que podemos sair por aí defendendo a idéia de que a moda é pura e simplesmente preconceituosa. Não gosta dos negros e pronto. Ela também é gerida por questões de mercado (como Alexandre aponta) e também por questões básicas do meio: não é porque a modelo é negra que ela vai entrar nesse ou naquele casting. Ela precisa, antes de tudo, ser bonita e atender aos requisitos básicos de qualquer boa profissional.

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(Só) Algumas das modelos negras mais poderosas: (da esq. para dir.) Alek Wek, Liya Kebede, Emanuela de Paula e Tyra Banks

A questão, ao meu ver, está mesmo em fazer que anunciantes, donos de empresas e estilistas passem a entender que ao não colocarem mais negros em seus desfiles e anúncios, eles só estarão perdendo o poder de consumo da mulher negra. Afinal, de acordo com estimativas do Target Market News, elas gastam sozinhas mais de 20 bilhões de dólares em aparência a cada ano!

Em tempo: no meio dessa discussão toda, Naomi Campbell anunciou seus planos de abrir uma agência no Quênia dedicada exclusivamente aos modelos negros. Daí, a perguntinha podre: estaria ela realmente interessada em lutar pelos negros ou seria apenas uma estratégia de marketing feita na hora certa?

Meninas adultas

27 out

GLAUCO DIZ: No começo do mês, entre os dias 3 e 5,  rolou a 6a  edição do Teen Fashion, evento de moda voltada ao público jovem. Sei que já faz um tempinho, mas até hoje ficou na minha cabeça um assunto que surgiu de uma observação da Laura Artigas, do Moda pra Ler, lá nos corredores da Cinemateca Brasileira: as meninas estão usando cada vez menos roupa e mais maquiagem. 

Parece papo de senhorinha conservadora, mas ficamos impressionados ao observar a quantidade de mini-saias (minis meeeesmo!), tops, saltões e maquiagem em garotas que não tinham mais do que 13 anos. Até concordo quando dizem que, nessa fase, o adolescente é super ligado na estética, queira chamar atenção, imitar seus colegas e seus artistas favoritos. Afinal, para eles (assim como para nós) é muito importante ser aceito no grupo.

Mas, fico me perguntando onde é que esse pessoal vem buscando suas referências? A sensação que eu tenho é que para essas meninas o importante é se parecer com a Beyoncé, dançar como Shakira e se vestir como a Christina Aguilera (com bastante umbigo à mostra). E a grande preocupação delas é saber quando os pais lhes darão autorização para fazer uma tatuagem, colocar um piercing ou, quem sabe, implantes de silicone. Radical? Pode ser. Mas, vocês hão de concordar, que essa não é uma afirmação falsa.

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Isso me faz lembrar de uma história que aconteceu nos tempos do colégio. Não sei direito se foi na 7ª ou 8ª série… Enfim, a diretora convocou uma reunião com pais e alunos para discutir a roupa da “molecada”. Ela defendia que aquilo ali era um colégio e não uma passarela; que as meninas pareciam competir para quem se atrevia mais no modelito; que abusavam das camisetas cortadas para deixar a barriga à mostra; e que os meninos brigavam pra ver quem ia usar a calça mais larga para deixar a cueca aparecendo. De nada adiantou. Quando ela sugeriu a adoção de uniformes, poucos pais aderiram à idéia (o que é compreensível, pois se tratava de um colégio público). E tudo continuou como era.

Isso só pra mostrar que, se naquela época, isso já era uma questão, imagina nos dias de hoje? Desde cedo essas meninas vão acreditando na idéia de que o sexy beirando ao vulgar que é o bonito. Daí talvez uma possível explicação, de outras inúmeras, da tão comentada falta de elegância ou, melhor, do excessivo apelo sexual na composição do visual da mulher brasileira (não estou generalizando, tá?). Uniforme já nessas garotas!

Meme: 5 livros Descolex

16 out

GLAUCO DIZ: Semana passada o Oliveiros convidou o pessoal aqui do BlogView para um meme literário. Mesmo com certo atraso, posto a minha lista. O duro foi estabelecer um critério de seleção… Comecei a rabiscar no papel todos os livros que acho legal (vários deles já citados nos outros memes) e quando fui ver tava com uma lista enorme. Abandonei todos os critérios e acabei escolhendo esses cinco simplesmente com o coração…rs:

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Hiroshima, de John Hersey. Um dos clássicos do jornalismo literário, o livro conta sobre a bomba atômica que devastou a cidade japonesa em 1945. O mais interessante da obra é que ela dá uma visão mais humana à tragédia, optando por tratar da história de seis sobreviventes um ano após a explosão. Publicado pela revista The New Yorker, a reportagem ganhou um prêmio Pulitzer e é citado como exemplo de jornalismo bem feito. Edições modernas do livro contém um quinto capítulo final, escrito quarenta anos após o artigo original. Nele, Hersey retorna para o Japão para descobrir o que aconteceu ao longo dos anos com as seis pessoas que ele entrevistou. Meu sonho, um dia, é escrever uma reportagem tão boa quanto essa…rs.

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Babado Forte, de Erika Palomino. Quando li o livro, fiquei com vontade de ter nascido alguns anos mais cedo… Só pra ter curtido as festas, as raves e o clubes da época. O livro não é nenhum clássico da literatura, óbvio. E nem de longe se pretende a isso. Mas, é um delicioso relato da cultura jovem urbana dos anos 90: os clãs e as tribos da noite, as grifes usadas, o nascimento e a morte dos clubs, a chegada do techno ao Brasil, a radiografia dos DJs, os primeiros discos de música eletrônica brasileira. Tudo numa edição dinâmica que alterna entrevistas (com Madonna, Kate Moss, Ru Paul…), datas e glossários de gírias da noite.

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A Metamorfose, de Franz Kafka. O que me encanta nesse livro é o fato de o clímax da história vir logo de cara no primeiro capítulo, no comecinho. É uma estrutura de narração seca, difícil, que trata do absurdo (o personagem principal, Gregor, se transforma num inseto) de uma forma banal, comum. Além de sustentar horas e horas de papo sobre as inúmeras interpretações psicológicas, sociais e filosóficas, a obra me fez ver, pela primeira vez, que uma história não precisa seguir aquelas estruturinhas infernais que a gente aprende na escola.

A Mancha Roxa, de Plínio Marcos. Na verdade, qualquer peça dele eu acho bacana. Nascido em Santos, Plínio foi traduzido, publicado e encenado em francês, espanhol, inglês e alemão; estudado em teses de sociolingüística, semiologia, psicologia da religião, dramaturgia e filosofia, em universidades do Brasil e do exterior. Recebeu os principais prêmios nacionais em todas as atividades que abraçou em teatro, cinema, televisão e literatura. A peça é apenas um exemplo de seu fascinante universo de marginalizados… Prostitutas, assaltantes, ladrões, homossexuais vivem às voltas com situações que muitas vezes não criaram, mas que se tornam, pouco a pouco, parte integrante de suas vidas. Enfim, me encanta esse “quê” underground dele.

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Fashion Now, de Terry Jones e Avril Mair. Trata-se de uma edição especial dos 25 da ediotra Taschen e conta com pequenos perfis dos 150 desginers mais importantes na opinião da revista i-D. É um super arquivo, tem imagens lindas e informações muito valiosas. Ainda não terminei de ler. Na verdade, acho que nunca vou terminar… Ele é bom mesmo pra consulta e pra se deliciar um pouco.

Passeio na web

5 out

GLAUCO DIZ: Gente, faz duas semanas que eu não posto nada aqui, pois estou enrolado com meu trabalho de conclusão da faculdade. Mas, para essa história não se repetir pela terceira semana seguida, passei aqui para indicar duas visitas bacanas na web.

A primeira é o site do projeto 6emeia, dos artistas Leonardo Delafuente (aka D lafuen T) e Anderson Augusto (aka SÃO). A dupla percorre a cidade pintando bueiros de um jeito bastante divertido:

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A idéia do trabalho surgiu da “vontade de mudança dos bairros e da própria cidade, melhorando assim esteticamente o caminho de transeuntes e moradores, colorindo-o, alterando e propondo uma série de novas idéias”. Bom, se antes bueiro era sujo, feio e um ótimo lugar para entupir quando chovesse, na mão desses dois virou um bom suporte para a street art. Dá pra ver mais trabalhos no Fotolog e no Flickr deles.

A segunda dica é o site do designer gráfico e “poster artist”, Mike King. O cara começou a carreira desenhando pôsteres para bandas punks que tocavam nos clubes locais da cidade dele, Portland (EUA). Pelo que eu li na biografia, ele só fazia isso porque queria entrar de graça nos shows. Vinte anos depois, King elabora capas de CDs, estampas de camisetas e anúncios para bandas e cantores do naipe de Iggy Pop, Gus Gus, Ben Harper e Jack Johnson.

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Seu trabalho está presente também em dois livros: Swag, de Spencer Drate e The Art of Modern Rock, de Paul Grushkin and Dennis King. No site, além de um portfólio bem generoso, tem trabalhos em edições limitadas e numeradas disponíveis para compra. Para quem curte artes gráficas, é inspirador…

Bicudo

5 set

GLAUCO DIZ: Quem costuma ir à Paulista já deve ter visto ele umas cem mil vezes no muro do túnel de acesso à Dr. Arnaldo. Quem curte reparar nos grafites da Vila Madalena também conhece. E quem sabe um pouquinho da história da nossa arte de rua sabe da importância dele. Estou falando de Bicudo, personagem símbolo do artista multimídia Rui Amaral. Criado na década de 80, o ET amarelo ocupou os muros de São Paulo, virou desenho animado, personagem de vídeo e, agora, é um toy art… Aliás, o primeiro toy art produzido em vinil aqui no Brasil.

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Bicudo no túnel da Dr. Arnaldo

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Diversos Bicudos pela cidade. A foto do canto superior esquerdo é o primeiro registro do personagem, feito em 1984, em um muro da rua Pedroso de Moraes. Como conta Rui no fotolog dele, o grafite foi feito “num role de madrugada” junto com seu “migo e mestre”, John Howard.

E o legal é que até 16 de setembro o Shopping Frei Caneca recebe a exposição “Toy Art do Bicudo”, que traz 23 bonecos customizados por artistas convidados. Nessa versão toy, Bicudo tem 50 cm e é feito de plástico maleável (quando você aperta na barriga, ele dá tipo um abraço… Fofo!). Outra coisa interessante é que ele é um toy art do tipo “blank”, ou seja, a pessoa pode pintar e bordar, dando personalidade ao brinquedo.

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Bicudo “blank” e em algumas versões customizadas da exposição.

Depois da expo no Shopping, Bicudo ganha mostra na galeria A Lot Of, em parceria com a The Toy. E se já bateu a vontade de ter um só seu, saiba que o toy já está à venda na Plastik.

O personagem também apareceu no vídeo.

Serviço
Exposição “Toy Art do Bicudo”
Shopping Frei Caneca
Rua Frei Caneca, 569 – Atrium

Universo Cosplay

30 ago

GLAUCO DIZ: Pesquisando para a minha primeira colaboração para o site da RG Vogue (Ebaaa!), descobri um universo bem curioso. Certamente, muitos já conhecem a cultura cosplayer. De qualquer forma, acho que vale dividir com vocês meu encantamento nerd com o tema…rs.

Abreviação de “costume player”, o cosplay surgiu na década de 70 (alguns falam que foi no Japão; outros, nos EUA), quando as convenções de quadrinhos e filmes de ficção científica liberavam a entrada de quem estivesse fantasiado como os personagens das histórias.  Com o passar do tempo, a prática foi se tornando uma tradição e um hábito que se espalhou por todos os tipos de convenções envolvendo séries ou personagens.

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Eu sou muito nerd… Queria tanto a fantasia dos X-Men (acima), ou do Squall, do jogo Final Fantasy (loiro agachado, logo abaixo). O cabelo da menina da foto à direita é bem legal!

Reza a etiqueta cosplay que você deve confeccionar a sua própria roupa com, no máximo, a ajuda de duas pessoas não-profissionais. Porém, com a brincadeira se tornando algo cada vez mais sério e um negócio para muitas empresas, há hoje até Cosplay Stores. Ou seja, lojas especializadas em comercializar produtos para esse público, além de fabricar toda sorte de fantasias, armaduras e armas. Na minha pesquisa, descobri que algumas pessoas gastam até R$ 2 mil para se transformarem no personagem escolhido.

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A japonesa Yaya Han, considerada uma das melhores do mundo no cosplay.

O principal ponto de encontro dos cosplayers são os eventos de animê que acontecem anualmente no mundo todo. No Brasil, são mais de 400 comunidades no orkut, com participação de pessoas de norte a sul do País, além de eventos em quase todos os estados. Por concentrar a maior colônia japonesa, São Paulo conta com as mais importantes convenções: além dos populares Animecon e Anime Friends, que recebem milhares de visitantes em Julho, a cidade sedia também as eliminatórias para o World Cosplay Summit (WCS), concurso internacional de cosplay cujas finais são realizadas no Japão. Nesses concursos, os competidores têm de fazer uma pequena apresentação que represente os personagens que escolheram encarnar e o desempenho é avaliado por juízes. Aliás, no WCS 2007, um casal de brasileiros estava entre os 12 finalistas. Os cariocas Thaís Jussi e Marcelo Fernandes foram buscar o bicampeonato do Brasil no concurso, já que os irmãos paulistas Mauricio e Mônica Somenzari venceram a edição de 2006.

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Após três meses preparando as vestimentas, Vingaard e Yuki, como são chamados os personagens dos cariocas Thaís Jussi e Marcelo Fernandes, venceram etapa nacional do WCS 2007.

Moda

Impossível não falar da influência que toda essa cultura tem na moda. De cara, dá pra lembrar de toda a montação dos jovens japoneses em Harajuku e Akihabara, bairros referência de cosplay pelo mundo, localizados em Tóquio. Em escala menor, o cosplay também ocupa as ruas de São Paulo. Quem freqüenta o bairro da Liberdade aos sábados certamente já deve ter visto, principalmente perto da estação do metrô, adolescentes com lentes de contato coloridas, tiara com orelhas de gatinho e, com um pouquinho de sorte, até uns cosplayers (eu já vi um grupo muuuuito legal: uns meninos vestidos iguais aos membros da gangue de Alex, interpretado por Malcolm McDowell, no clássico Laranja Mecânica).

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Fotos do Flickr de jovens do bairro japonês de Harajuku, em Tóquio 

Super antenada na cultura pop e nas atitudes que “estão em alta”, a estilista Thais Losso, apresentou no último Fashion Rio, pela grife Sommer, uma coleção com temática oriental. Para o desfile que rolou no Cine Odeon, no centro do Rio, contratou cosplayers e exibiu vídeos do popular desenho Naruto. Já a Nike, que pelo visto não perde uma, também lançou uma propaganda que utiliza desse universo. Cosplayers perseguem um cara pelas ruas de Tóquio usando tênis multicoloridos. É bem legal.

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O verão 2008 da Sommer tem referências na cultura pop asiática e, é claro, nos cosplayers (Fotos Alexandre Schneider/UOL)


O Vídeo Nikecosplay

Consumo do bem

25 ago

GLAUCO DIZ: Em tempos de Criança Esperança, fiquei pensando na quantidade de iniciativas que existem hoje em prol de alguma coisa, de qualquer coisa. Não que eu não ache válido ajudar as criancinhas, os velhinhos, as baleias, as árvores… Mas, frente a essas milhares de campanhas para arrecadar dinheiro, não é de se espantar que as pessoas façam cada vez menos caridade. “Se eu for ajudar todo mundo que me pede, sou eu que vou precisar levantar fundos pra viver…” é uma frase muito comum de se ouvir. É por isso que, de uns tempos pra cá, grandes campanhas para arrecadar dinheiro vêm envolvendo cada vez mais o consumo (esse sim, nunca para de aumentar) de um produto.

Lembra-se daquelas pulserinhas da Livestrong? Lançada em 1999, o fruto da parceria entre a Lance Armstrong Foundation e a Nike virou febre mundial. (Quase) todo mundo tinha uma. A original era amarela, mas depois de um tempo dava para encontrar todas as cores em qualquer camelô… Comprava-se porque “tá na moda” sem que ao menos as pessoas soubessem qual era a razão daquilo mais. Sem dúvida, um aspecto negativo desse tipo de estratégia de marketing das ONGS.

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As pulseiras originais da Livestrong…

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… E as fakes.

Propaganda da Nike sobre a fabricação das pulseiras

Mas, por outro lado, há de se concordar que se a única linguagem universalmente compreendida é a do consumo, é mais do que justo utilizá-la a favor de coisas positivas. Um exemplo muito bom disso é a Red. Criada para arrecadar recursos para o Fundo Global de combate à Aids na África, além da malária e da tuberculose, a campanha pintou de vermelho produtos de grandes empresas como Apple, Motorola, GAP, Armani e Converse.

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Linhas de produtos Red: Gap, Apple, Motorola, Armani e Converse são alguns exemplos

O queridinho do momento, Mika emprestou a voz para a propagada da Motorola sobre o celular Red

A revista americana Vanity Fair, inclusive, entrou na onda dedicando sua edição de Julho a matérias e entrevistas sobre o Red e a situação na África. Além disso, lançaram em parceria um CD no iTunes com músicas de artistas africanos. Todo dinheiro da venda das faixas foi e está sendo destinado para a causa. “A Red não é caridade, é simplesmente um modelo de negócio. Você compra coisas ‘vermelhas’ e nós conseguimos o dinheiro. Compramos os remédios e os distribuímos. Assim conseguem continuar vivos e cuidar de suas famílias”, afirma o manifesto da campanha. Em maio de 2006, a Red entregou seu primeiro US$ 1 milhão ao Fundo Global para suas atividades em Ruanda. Em setembro, outros US$ 9 milhões foram para essa nação e a Suazilândia, um dos países africanos mais afetados pela Aids.

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A revista Vanity Fair fez 20 capas com diferentes personalidades. A idéia era criar a sensação de que um passava a idéia para o outro…

Bono Vox fala do seu trabalho como “editor convidado” da edição especial da Vanity Fair África

Aqui no Brasil, não poderia deixar de citar a Campanha “O Câncer de Mama no Alvo da Moda”. Nascida nos Estados Unidos, em 1994, por iniciativa do CFDA (Council of Fashion Designers of America), é realizada há 12 anos no Brasil pelo IBCC – Instituto Brasileiro de Controle do Câncer. Nesse período, o alvo azul desenhado por Ralph Lauren em homenagem à sua amiga e jornalista, Nina Hyde, que morreu de câncer de mama em 1990, estampou inúmeros produtos licenciados por empresas como Hering e Rainha, além de coleções assinadas por estilistas como Isabela Capeto e Marcelo Sommer. Segundo dados do próprio IBCC já foram vendidas mais de 7 milhões de camisetas do “alvo” e arrecadados mais de R$ 40 milhões desde o início da campanha. Esses recursos permitiram ao hospital ampliar em três mil metros quadrados a sua área e subsidiar parte dos atendimentos médicos, dobrando o volume de consultas, mamografias e cirurgias.

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Linha de produtos “do Alvo”: Hering, Ronaldo Fraga, Rainha e Isabela Capeto são alguns exemplos

 

Consideração

Com os exemplos acima, tudo indica que esse modelo de arrecadação de fundos é o futuro (e o presente) das ONGs. Mas há, na minha opinião, uma consideração importante: cria-se a sensação de que comprando, as pessoas já terão feito a parte delas. Você compra o seu ipod Red e pode dormir ouvindo música tranquilamente sabendo que ajudou quem nem sabe o que é ter uma cama… Parece simples demais. Tão simples que banaliza questões que devem ser discutidas, cobradas e tratadas com mais seriedade por todos. Se além de comprar, cada um pudesse doar um pouco do seu tempo, um pouco do seu poder de espalhar e difundir idéias, talvez a coisa seria bem melhor, não acham?